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Não fora a Guerra e a política do Estado Novo de querer transformar o
Alentejo no «Celeiro de Portugal», esta vasta peneplanície talvez
pudesse ser hoje a mais famosa zona vinícola do mundo. Talvez até
pudesse hoje produzir quantidades suficientes para abastecer mercados
emergentes como o da China, onde muita gente sabe que o vinho português
é excelente (a associação fonética com que em chinês se designa Portugal
contém o ideograma correspondente a vinho), onde alguns até conhecem as
maravilhas dos néctares alentejanos, mas onde a nossa produção não
chega, nunca chegou, em quatrocentos anos de relações comerciais.
A actual retoma na produção vinícola e a dolorosa constatação da
incapacidade das terras alentejanas para a produção cerealífera talvez
possam contribuir para tirar o Alentejo do marasmo económico em que
caiu. (…)
Em boa verdade, uma grande parte das terras alentejanas revelam
composição que as torna claramente indicadas para o plantio da vinha.
Associada ao clima tipicamente mediterrânico, esta característica leva
muitos forasteiros a quedarem perplexos perante a quase total ausência
de vinha. Mesmo para o leigo, parece óbvio tratar-se de uma região que
teria tudo a ganhar com a florestação e com a produção vinícola. Porque
não acontece assim? Vá-se lá saber. A verdade é que todas aquelas
extensões de terrenos xistosos, à míngua de água, continuam dedicados à
produção de cereais para a qual não dispõem de adequação. Para vermos em
que condições de rentabilidade essas culturas decorrem, basta
percorrê-lo e observar a pobreza das suas gentes.
Em contraste, nas zonas onde se procedeu, nos últimos anos, ao plantio e
à renovação de vinhas, a qualidade do produto extraído garante um
rendimento aceitável aos agricultores. (…) |