|
Eram uns
quadrados de pano cru onde se colocava a papa, dobrados de pontas para o
centro para não verter a poção. A pequena "almofada" era depois
colocada, como um penso, no ferimento.
Foi a sua
redenção. Correu à cozinha e fez uma massa de farinha, pois a pouco mais
tinha acesso, e cortou-a em pequenos quadrados. Não tinha doce mas,
tendo guardado religiosamente o cibo de açúcar que lhe cabia em ração,
fez uma compota de calondro (abóbora). O tacho ao lume poucas suspeitas
levantava. As cascas e sobras só lembravam o pouco uso que tinha no
caldo e o muito na engorda do gado. E a massa escurecida pelo ponto do
açúcar não mais do que a linhaça da mezinha, que se quer cozida.
Dobrou a
massa por cima da compota, à imagem dos "pachos", e cozeu-os no forno
sempre quente a qualquer hora do dia. Despachou-se em seguida a
escondê-los debaixo do catre da sua cela.
No caminho
cruzou-se com a Madre Superiora. No meio da escuridão a abadessa
pergunta-lhe o que leva no tabuleiro. A velha senhora ainda empina o
nariz para ver se o adivinha pelo cheiro. Diz-se que na falta de um ou
outro sentido os restantes se apuram, mas nesta apenas o ouvido era de
tísica.
A
resposta, depois de um primeiro engasgar, soltou-se logo. Era tudo em
nome das duas santas, a da "receita" e a das rosas, imitadas nesta
aspiração de ser igual quando se professa e toma hábito e voto:
"São
pachos de linhaça Irmã Madre... para os meus doentinhos que amanhã virão".
Dali para
a frente, e já Irmã Imaculada de Jesus, fez sempre que podia, houvesse
ou não olho tumefacto, gretado, remeloso ou negro de um qualquer sopapo
de briga de feira, os "pachos" de abóbora.
Não eram
muito agradáveis à vista mas, ao menos, satisfaziam-lhe a gula e calavam
na profundeza da alma o pecado que não sentia porque, comendo-os na
escuridão da cela e da noite, sabia, porque o tinha ouvido dizer, que
"do que não se vê não se peca".
Da
evolução dos pachos de abóbora para os pitos que no dia de
Santa Luzia
se celebram, não rezam as crónicas consultadas, e outras não há que o
confirmem ou desmintam.
Vá lá a
gente saber o porquê de uma história que, tendo origem tão santa, se vê,
talvez na lucobricidade dos Homens, transformada num ritual de trocas e
promessas. O pito é dado a quem, de outro santo e outro doce – as
ganchas de S. Brás – a deram antes para receber aquele agora.
Retirado de folheto promocional da Região de Turismo da
Serra do Marão. Pesquisa histórica de Juvenal Cardápio |