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(continuação)
Com todos os
cuidados que a Ciência Histórica recomenda, pois parecia simples e óbvio
que a «gancha» fosse a iconização do báculo bispal de S. Brás, não
faltam porém as alusões a uma espécie de espátula para «pincelar»
gargantas ou desalojar objectos estranhos nela instalados. A
justificar a doçura são várias as razões. Nas mais aceitáveis a de que
seria para «adoçar o bico» às crianças e facilitar o trabalho ou, como o
mel, teria efeito balsâmico e apaziguador nas gargantas irritadas ou
inflamadas, quando enriquecida a mistura com outros ungentos, ervas e
aromas.
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Chegamos assim
ao S. Brás que, a 3 de Fevereiro de cada ano, se celebra e honra na sua
capelinha de S. Dinis, em Vila Real, cumprindo-se ou fazendo-se novas
promessas de tagarelas afónicas, gargantas desafinadas, rouquidões
tísicas, nós que não desatam, bocas abertas de espanto ou outros
engaranhos orais.
Com os tempos
vieram outras andanças e modas, e outros modos de celebrar, cumprir a
prometer. Todos lá vão, estudantes, doutores ou iletrados, e fazem a
volta ao cemitério, às arrecuas, sem abrir a boca para não entrar
enguiço.
Depois, é a
festa, os foguetes e os sinos com a música a acompanhar e as quadras que
ninguém esquece e trauteia ao compasso do badalo da torre de S. Dinis.
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Eu vou ao S. Brás
de cú para trás
comprar uma gancha
p'ró meu rapaz |
Eu vou ao S. Brás
de cú para a frente
comprar uma gancha
p'rá minha gente |
Eu vou ao S. Brás
de cú para o lado
comprar uma gancha
p'ró meu namorado |
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Esta é a tradição que lembra a da Santa
Luzia e dos «pitos», a 13 de Dezembro, outra festa a recordar o
S.
Brás. É a «relação» e o ritual de trocas e promessas do pito dado a quem
deu a gancha e vice-versa. Atente-se porém nas quadras que atribuem à
rapariga a compra da gancha para dar. Talvez a lembrar oferta dezembrina
não aceite?... Ou então, como refere escrito recente, a quem nunca lha
tenha dado ou usado. Repare-se que a gancha, retorcida como bengala,
conforme se lhe pega, tanto arrebita para cima como cai para baixo...
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Retirado de folheto promocional da Região de Turismo da
Serra do Marão. Pesquisa histórica de Juvenal Cardápio |