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A
origem religiosa centra-se sobretudo na temática e nas circunstâncias. O
“Cantar os Martírios” é um ritual que, para lá da memória dos que ainda
são vivos, era cumprido pelo povo, durante a Quaresma. Os tempos são
outros, e cabe hoje ao Rancho Folclórico e Etnográfico do Refúgio
garantir que a tradição se mantém. Desde que a organização cabe à
colectividade, a quinta-feira santa é o dia escolhido. Este ano [2007] foi a 5
de Abril, e as vozes das cantadeiras fizeram-se sentir de um lado para o
outro da Rua do Clube Recreativo, no Refúgio.
José Simões recorda-se de ouvir as 28 quadras tradicionais desde criança
quando, com sete anos, passou a residir no Refúgio. O esmorecer da
tradição fez com que, quando fundou o rancho local, tenha adequado o
“Cantar os Martírios” à vida e à disponibilidade das pessoas. Esta é,
ademais, uma das diversas recolhas que o grupo fez desde 1966. Até essa
data, “era feito no meio rural, a poluição sonora quase não existia, não
havia barulho, só um ou outro cão a ladrar. Não havia televisão, a
população era menor, e havia a preocupação de as pessoas viverem à
espera que isto acontecesse. Nem havia necessidade de parar o trânsito”.
Estas são algumas das diferenças que o director técnico do rancho
refugiense encontra na actividade.
Nessa altura, os cantares decorriam ao longo de todo o período quaresmal
pelo que, à noite, toda a população estava atenta à espera dos primeiros
sinais. “O cantador ou cantadeira subia a um ponto elevado da sua quinta
– uma árvore ou a janela mais alta de casa – e cantava para alguém que
lhe havia de responder do outro lado”, recorda José Simões. Como hoje, o
“Cantar os Martírios” durava cerca de 40 minutos. Um canto exigente, que
requeria das pessoas boa voz e bom fôlego. Durante esse tempo eram
cantadas 28 quadras, divididas e com resposta. José Simões lembra-se da
devoção dos locais: “Quando alguém em casa notava que se estava a cantar
os martírios, a família ia toda para a porta e ali ficava a ouvir”.
Mas as pessoas vão envelhecendo e as tradições desaparecem da memória,
até porque hoje poucas pessoas se lembram de quando era cantado
espontaneamente. As cantadeiras de agora socorrem-se de folhas com todos
os versos, evocando a divindade do corpo de Cristo e as horas da
crucifixão, e exortam os fiéis a rezar. Mas antigamente, “as pessoas não
precisavam de folha. Sabiam de memória, pois nem sabiam ler. Da memória
passou para o papel para não se perder”, explica José Simões. Este ano,
o frio foi o maior inimigo, que não deixou as pessoas sair de casa para
assistir ao ritual. O “Cantar os Martírios” acontece agora em apenas num
dos dias da Quaresma, “um dos mais marcantes do calendário religioso”,
justifica José Simões. E é com orgulho bairrista que José Simões olha
para o país e para estas pequenas marcas locais: “A nossa Beira Interior
tem uma riqueza grande de tradições que o Litoral não tem. Tem outras
coisas, mas não as tradições”.
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