A festa da “Velha” ou dança
da “Velha” faz parte dos ritos de passagem e iniciação
celebrados em toda a Terra de Miranda no período
solisticial de Inverno.
A velha de Vila Chã é representada por um homem tisnado
no rosto e nas mãos, vestindo uma saia preta de burel,
enfeitada com rendas e bordados brancos. Calça sapatos
de bezerro e enverga um casaco de burel preto velho,
enfeitado de franjas e rendas brancas. Na cabeça traz um
chapéu preto, sujo e roto enfeitado com fitas de várias
cores e palmitos.
Traz um rosário de bugalhos pendurado do pescoço com uma
cruz de cortiça queimada com que marca os que não lhe
querem dar a esmola e também todas as moças solteiras.
Na mão esquerda traz uma estaca de pau onde pendura as
peças de fumeiro que lhe vão dando pelas casas. Onde não
lhe querem dar a esmola, entra à cozinha e rouba do
fumeiro o que pode apanhar.
Na mão direita traz uma bengala forte e, na extremidade
desta, algumas bexigas de porco cheias de vento com que
amedronta e põe em debandada a criançada sem magoar
ninguém.
Ao ombro traz uma borracha (bota de vinho) cheia, da
qual vai bebendo durante a volta e vai soltando gritos
como: Guh, Guh, Haa, Hi, Hi !!!
A Velha é acompanhada por um rapaz vestido de pauliteiro
com saia branca, com lenços garridos de várias cores de
seda, dobrados e pendentes da cintura. Na cabeça traz
chapéu enfeitado com palmitos e fitas e veste casaco
sobre o colete, também enfeitado com cordões e fitas.
Nas mãos traz castanholas com que acompanha os gaiteiros
e o baile às portas das casas.
Outra figura que acompanha a Velha é um outro rapaz
vestido de mulher, geralmente alto, trazendo na cabeça
também um chapéu de pauliteiro sobre um lenço chinês.
Toca conchas ou carrascas para acompanhar a dança. As
três figuras dançam geralmente a dança da “bicha”
acompanhados pelo grupo de tamborileiros mirandeses,
gaita, caixa e bombo.
Os mordomos da festa seguem o conjunto da “Velha” com
alforges e sacos e também um cântaro de
folha-de-flandres para recolher o vinho que lhes
oferecem.
“Recolhem pão cozido, dinheiro, cereal e carne de porco.
Ao sair da igreja, no fim da missa e da procissão do
Menino Jesus, é leiloado tudo o que se recolheu na volta
do povo e o que sobra de pão, carne e vinho é para uma
ceia colectiva.
Junto de cada porta os três bailadores, durante a volta,
dançam a bicha, dança típica da festa da Velha. A Velha
ostenta as bexigas na ponta do balão e as chouriças na
ponta da estaca com os gritos que atrás referimos”.
O trio etnográfico assiste à missa da festa e depois
acompanha a procissão. Durante a missa e a procissão o
rapaz, vestido de mulher, tira o chapéu e cobre-se com
um lenço e xaile de lã pesada, confundindo-se com as
outras mulheres do povo.
A Velha traz escrito nas costas um papel com versos sem
métrica certa, e rima imperfeita.
…. O ritual de marcar as moças com a cruz de cortiça
queimada tem origem nas festas da “Lupercalia” e das
“Floralia” dos Romanos em que os homens tocavam nas
mulheres para as tornar fecundas.