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Assim, cedo nos apercebemos de que as melodias da "Ementa das Almas"
fugiam um pouco à sonoridade que estávamos habituados a ouvir.
Pensávamos:- Isto deve estar desafinado!...
Mais tarde, com o evoluir dos nossos conhecimentos musicais, começámos,
finalmente, a perceber que não se tratava de desafinação, mas de uma
técnica de composição diferente. É aqui que surge a ideia de deslindar a
origem desta tradição. Não de uma forma superficial, mas de algo mais
profundo, indo mesmo às origens mais remotas.
Para tal, havia que investigar, não só em Loriga, mas noutras terras
onde rituais deste género têm lugar. Assim, a simples curiosidade dá
lugar a uma pesquisa sistemática de cariz mais científico.
Como ao longo dos anos fomos recolhendo informação sobre este e outros
assuntos que se referem às tradições da região serrana, tradições
culturais de uma forma geral, mas com especial incidência nas musicais,
não é de estranhar que tenhamos optado por tratar este tema logo que
surgiu uma oportunidade de fazer uma investigação na área da
Etnomusicologia.
Assim, formulámos o seguinte problema nesta investigação:
- Será a "Ementa das Almas" de Loriga uma tradição secular? E quando se
terá iniciado?
Para responder a esta pergunta e solucionar o problema que colocámos, há
que atender a um sem número de situações que se prendem com a
delimitação desta problemática.
Numa primeira análise, verificamos que o âmbito desta investigação
atravessa vários domínios das Ciências Sociais.
Desde logo devemos contextualizar este problema numa perspectiva
histórica. Há que curar de saber se Loriga ou outro aglomerado
populacional poderiam suportar uma tradição deste tipo ao longo de um
determinado período histórico. Isto é, para situarmos a origem deste
ritual num dado momento histórico, há que saber se existiam os sujeitos
e se os mesmos poderiam ser localizados no espaço ou território a que
hoje chamamos Loriga.
Por outro lado, cruzámo-nos com a perspectiva antropológica. De que
forma ritualizava o homem o culto dos mortos? Quando e em que condições
o começou a fazer? Porquê ritualizar este culto? Que crenças lhe estão
subjacentes? Qual o papel da religião nesta ritualização? Como evoluiu a
crença na vida para além da morte?
A estas e outras perguntas do mesmo tipo tentámos responder ao longo da
nossa investigação. Até porque sem estas respostas não conseguiríamos
contextualizar, do ponto de vista antropológico, o problema que
formulámos.
Por fim surge-nos a perspectiva musical ou para sermos mais correctos a
perspectiva etnomusical. E aqui tratámos de procurar pontos de contacto,
semelhanças ou diferenças entre técnicas de composição actuais e outras
mais ancestrais.
Procurámos fazer a análise de partituras deste e de outros rituais
semelhantes e situar as mesmas no tempo e no espaço.
Tínhamos consciência de que seria algo difícil provar com toda a certeza
que a tradição da "Ementa das Almas" de Loriga tem origem secular,
provavelmente no tempo da Romanização da Península Ibérica.
No entanto, através da investigação e de comparações com melodias e
tradições divulgadas por outras fontes, procurámos atingir esse nosso
objectivo.
Para atingi-lo, colocámos em cima da mesa várias hipóteses:
Sendo o nosso objectivo situar esta tradição o mais longe possível no
tempo, a primeira das hipóteses que colocámos situa-se no período
anterior à formação da nacionalidade, na Lusitânia, pois as fontes que
consultámos dão-nos conta da existência de uma comunidade no local.
É uma hipótese remota mas nem por isso totalmente descabida, uma vez
que, existem vestígios de rituais fúnebres, que remontam a esse período.
Outra das hipóteses, quiçá, a mais credível, situa-se na época da
reforma do canto litúrgico - Séc IX.
Dizemos que será a mais credível atendendo à forma de construção de
algumas das melodias que, em nosso entender, mantém uma certa semelhança
com a construção monofónica e execução responsorial típica do
"cantochão".
Uma terceira hipótese é aquela que situa o início desta tradição nos Séc
XVII ou XVIII.
No entanto, esta, à partida, está provada pelos testemunhos recolhidos
em Loriga. O "Ti Zé Garcia" homem para 70 e tantos anos, já falecido,
que foi a alma deste ritual há duas décadas, dava-nos conta de que foi
iniciado nesta tradição pelo seu pai, que por sua vez havia sido
iniciado pelo pai dele. Todos os outros participantes neste ritual
afirmavam ter sido iniciados pelos pais e estes pelos avós.
Aprofundámos, no entanto, a hipótese que considerámos mais credível,
atendendo às características musicais dos cânticos utilizados ou seja, o
Séc. IX. Dos dois cânticos que apresentamos, em ambos os casos a
construção afigura-se-nos como modal. Isto é, sendo tonal a música que
estamos habituados a ouvir (a música tonal só aparece nos Séc. XVII /XVIII),
esta soa-nos aos ouvidos como algo estranho, como se não fizesse parte
(como não faz) do nosso quotidiano. É que a música que estamos
habituados a ouvir é construída a partir de escalas - tonalidades -
porque assentam numa nota que é a tónica. Eis a razão porque se chama
tonal.
Na Idade Média, a musica era modal, porque a sua construção assentava em
modos. Esses modos eram grupos de sons sobre os quais eram construídas
as melodias da época.
Existiam 4 modos chamados Autênticos ou Gregos e 4 modos derivados
destes, chamados Plagais ou Eclesiásticos.
A construção melódica dos cânticos que analisámos é tipicamente modal,
logo, com origem na época da reforma do cântico litúrgico (Séc. IX). Os
Martírios estão construídos no modo Autêntico de Mi, também conhecido
por Frígio. A Melodia da "Ementa das Almas" está construída no modo
autêntico de Ré, também conhecido por Dórico.
A sua forma responsorial é típica do Cantochão, nome que era dado ao
canto Gregoriano dessa época. Os Melismas ( uma só sílaba é entoada ou
prolongada pela melodia) também típicos desta época estão presentes em
ambos os cânticos com alguma abundância.
Pelas razões apontadas e outras de cariz mais científico, que aqui nos
abstemos de abordar, poderemos, efectivamente afirmar que esta é uma
tradição que remonta aos primórdios do Cristianismo na Península
Ibérica.
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