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  A Ementa das Almas (3)

Estudo da Tradição Secular da "Ementa das Almas"
em Loriga

(Síntese da Memória Final da Licenciatura em Ensino - Educação Musical)

Joaquim Pinto Gonçalves

(Continuação)

Como Situar a Tradição?

Desde muito cedo, ainda na infância, este ritual marcou-nos de uma forma que, na altura não conseguíamos explicar.

Com o decorrer dos anos, envolvemo-nos com aqueles que, madrugadas dentro cumpriam religiosamente, todos os anos, esta tradição.

Assim, cedo nos apercebemos de que as melodias da "Ementa das Almas" fugiam um pouco à sonoridade que estávamos habituados a ouvir. Pensávamos:- Isto deve estar desafinado!...

Mais tarde, com o evoluir dos nossos conhecimentos musicais, começámos, finalmente, a perceber que não se tratava de desafinação, mas de uma técnica de composição diferente. É aqui que surge a ideia de deslindar a origem desta tradição. Não de uma forma superficial, mas de algo mais profundo, indo mesmo às origens mais remotas.

Para tal, havia que investigar, não só em Loriga, mas noutras terras onde rituais deste género têm lugar. Assim, a simples curiosidade dá lugar a uma pesquisa sistemática de cariz mais científico.

Como ao longo dos anos fomos recolhendo informação sobre este e outros assuntos que se referem às tradições da região serrana, tradições culturais de uma forma geral, mas com especial incidência nas musicais, não é de estranhar que tenhamos optado por tratar este tema logo que surgiu uma oportunidade de fazer uma investigação na área da Etnomusicologia.

Assim, formulámos o seguinte problema nesta investigação:
- Será a "Ementa das Almas" de Loriga uma tradição secular? E quando se terá iniciado?

Para responder a esta pergunta e solucionar o problema que colocámos, há que atender a um sem número de situações que se prendem com a delimitação desta problemática.

Numa primeira análise, verificamos que o âmbito desta investigação atravessa vários domínios das Ciências Sociais.

Desde logo devemos contextualizar este problema numa perspectiva histórica. Há que curar de saber se Loriga ou outro aglomerado populacional poderiam suportar uma tradição deste tipo ao longo de um determinado período histórico. Isto é, para situarmos a origem deste ritual num dado momento histórico, há que saber se existiam os sujeitos e se os mesmos poderiam ser localizados no espaço ou território a que hoje chamamos Loriga.

Por outro lado, cruzámo-nos com a perspectiva antropológica. De que forma ritualizava o homem o culto dos mortos? Quando e em que condições o começou a fazer? Porquê ritualizar este culto? Que crenças lhe estão subjacentes? Qual o papel da religião nesta ritualização? Como evoluiu a crença na vida para além da morte?

A estas e outras perguntas do mesmo tipo tentámos responder ao longo da nossa investigação. Até porque sem estas respostas não conseguiríamos contextualizar, do ponto de vista antropológico, o problema que formulámos.

Por fim surge-nos a perspectiva musical ou para sermos mais correctos a perspectiva etnomusical. E aqui tratámos de procurar pontos de contacto, semelhanças ou diferenças entre técnicas de composição actuais e outras mais ancestrais.

Procurámos fazer a análise de partituras deste e de outros rituais semelhantes e situar as mesmas no tempo e no espaço.

Tínhamos consciência de que seria algo difícil provar com toda a certeza que a tradição da "Ementa das Almas" de Loriga tem origem secular, provavelmente no tempo da Romanização da Península Ibérica.

No entanto, através da investigação e de comparações com melodias e tradições divulgadas por outras fontes, procurámos atingir esse nosso objectivo.

Para atingi-lo, colocámos em cima da mesa várias hipóteses:
Sendo o nosso objectivo situar esta tradição o mais longe possível no tempo, a primeira das hipóteses que colocámos situa-se no período anterior à formação da nacionalidade, na Lusitânia, pois as fontes que consultámos dão-nos conta da existência de uma comunidade no local.

É uma hipótese remota mas nem por isso totalmente descabida, uma vez que, existem vestígios de rituais fúnebres, que remontam a esse período.

Outra das hipóteses, quiçá, a mais credível, situa-se na época da reforma do canto litúrgico - Séc IX.

Dizemos que será a mais credível atendendo à forma de construção de algumas das melodias que, em nosso entender, mantém uma certa semelhança com a construção monofónica e execução responsorial típica do "cantochão".

Uma terceira hipótese é aquela que situa o início desta tradição nos Séc XVII ou XVIII.

No entanto, esta, à partida, está provada pelos testemunhos recolhidos em Loriga. O "Ti Zé Garcia" homem para 70 e tantos anos, já falecido, que foi a alma deste ritual há duas décadas, dava-nos conta de que foi iniciado nesta tradição pelo seu pai, que por sua vez havia sido iniciado pelo pai dele. Todos os outros participantes neste ritual afirmavam ter sido iniciados pelos pais e estes pelos avós.

Aprofundámos, no entanto, a hipótese que considerámos mais credível, atendendo às características musicais dos cânticos utilizados ou seja, o Séc. IX. Dos dois cânticos que apresentamos, em ambos os casos a construção afigura-se-nos como modal. Isto é, sendo tonal a música que estamos habituados a ouvir (a música tonal só aparece nos Séc. XVII /XVIII), esta soa-nos aos ouvidos como algo estranho, como se não fizesse parte (como não faz) do nosso quotidiano. É que a música que estamos habituados a ouvir é construída a partir de escalas - tonalidades - porque assentam numa nota que é a tónica. Eis a razão porque se chama tonal.

Na Idade Média, a musica era modal, porque a sua construção assentava em modos. Esses modos eram grupos de sons sobre os quais eram construídas as melodias da época.
Existiam 4 modos chamados Autênticos ou Gregos e 4 modos derivados destes, chamados Plagais ou Eclesiásticos.

A construção melódica dos cânticos que analisámos é tipicamente modal, logo, com origem na época da reforma do cântico litúrgico (Séc. IX). Os Martírios estão construídos no modo Autêntico de Mi, também conhecido por Frígio. A Melodia da "Ementa das Almas" está construída no modo autêntico de Ré, também conhecido por Dórico.

A sua forma responsorial é típica do Cantochão, nome que era dado ao canto Gregoriano dessa época. Os Melismas ( uma só sílaba é entoada ou prolongada pela melodia) também típicos desta época estão presentes em ambos os cânticos com alguma abundância.

Pelas razões apontadas e outras de cariz mais científico, que aqui nos abstemos de abordar, poderemos, efectivamente afirmar que esta é uma tradição que remonta aos primórdios do Cristianismo na Península Ibérica.

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