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Antigamente, o povo apurava as críticas,
quer aos altos mandatários da sociedade local, quer os próprios
vizinhos, os “compadres”, sendo tudo preparado em segredo para se
verificar o efeito surpresa. Havia uma “guerra dos sexos”, pois a
rivalidade entre homens e mulheres levava uns e outros a caprichar na
amostragem do melhor conjunto, comadres ou compadres, quem tem mais
piada, quem retractava mais fielmente as figuras sociais que eram
vítimas da crítica do povo.
Esta ironia e sarcasmo continua bem patente
nos versos e bonecos que se encontram espalhados pelo centro da cidade e
deverá vir ao de cima na “sentença dos compadres”, na tarde de domingo.
Recorde-se que na quinta-feira das comadres, estas reuniam em segredo e
escolhiam o compadre sobre o qual ia recair a sua vingança, tratando de
confeccionar um boneco de trapos ou de palha, o mais parecido possível
com a vítima, que aparecia pendurado pelo pescoço numa árvore ou
afogado, para chacota de todos, que era assim, ridicularizado na praça
pública. À noite queimavam o compadre sob o olhar atento e à distância
dos compadres.
A rivalidade fazia-se sentir, pois se o
tempo não estava de feição logo os compadres regozijavam, sendo que o
inverso também se verificava. Na quinta-feira seguinte, dia dos
compadres, um juiz vestido a rigor ditava a sentença da comadre, com
base nos crimes por ela cometidos e que poderiam ser desde o simples
facto de ser “bilhardeira” ou usar mini-saia, ou ainda de defender a
igualdade de direitos entre ambos os sexos. Por vezes a festa
prolongava-se nas semanas seguintes, uma vez que as réplicas de um lado
e de outro eram tão habituais.
No início da década de setenta, os compadres
e as comadres passaram a juntar-se, constituindo um cortejo alegórico
que percorria as principais ruas de Santana, de modo que de ano para ano
foi atraindo gente de outras paragens da Ilha, tornando-se um dos
principais cartazes do concelho de Santana. A abrir o cortejo vem
normalmente a comadre gigante, acompanhada do compadre anão, que no
final da festa, são ambos queimados.
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