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Provavelmente com origem nas Saturnais romanas, o Entrudo de Lazarim é
um ritual carnavalesco que assinala a renovação primaveril da
agricultura e o fim das abstinências alimentares e sexuais da Quaresma.
É uma celebração marcada pela licenciosidade permitida, quer a coberto
das máscaras – sabiamente talhadas em madeira de salgueiro, uma espécie
comum na região – quer pelo desempenho da função «respeitável» de
compadre e comadre.
E o momento mais significativo destas festividades é precisamente a
leitura dos testamentos da comadre e do compadre, figuras desempenhadas
por uma jovem e um mancebo da aldeia, que se faz geralmente no Largo do
Padrão (substituto do antigo pelourinho, que se perdeu). Do alto de um
pedestal, comadre e compadre distribuem, ela pelos rapazes, ele pelas
raparigas, as partes de uma burra, lendo testamentos redigidos em verso.
A ladainha começa por apontar o defeito mais notado do ou da visada,
atribuindo-lhe então a parte do animal mais conforme:
«O defeito que tu tens
Com esse mesmo é que ficas
És muito bom rapaz
Mas deves de ser maricas»
reza a comadre ao deixar o «serro» da burra ao menino Carlos.
«O defeito que tu
tens
A mim não me enganas
Já nadas a namorar
E ainda não tens mamas»,
é a vez do compadre invectivar a menina Manuela, antes de doar as
«partes» do burro à moça mais licenciosa.
Enquanto isso, na fogueira acesa no largo coze a imensa feijoada que vai
deliciar os muitos visitantes que ocorrem a Lazarim na Terça-feira
Gorda. |