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Um
Algarve desconhecido
UM
PASSEIO pelo Algarve desconhecido, a Serra Caldeirão — território
que separa as planícies alentejanas do ameno litoral sul do país. Tão
inóspita quanto deslumbrante, esta paisagem foi no século XVI
descrita, por comparação com o Oceano, por frei João de São José,
na sua Corografia do Reino do Algarve, com realismo surpreendente
como um «mar muito empolado, com grande tormenta, onde não se vê
cousa chã ou igual senão umas ondas altas e outras maiores junto
delas, ficando uns grandes baixios saídos entre umas e outras...».
Cobre-se esta serrania de estevas e tojo. Aqui e além as leiras de
milho e centeio mantêm-se por teimosia de braços que não desistem,
também, de acarinhar pequenas hortas. Inicie-se, então, viagem a
partir de Alcoutim.
Sobranceira
ao Guadiana, a vila recobre-se de branco. As ruas serpenteiam pela
encosta até ao castelo, exemplarmente preservado, repositório de um
imenso património.
Desde
o megalítico, passando pela presença romana e a ocupação árabe,
percorre-se o quotidiano de quem habitou o território até ao século
XVII, altura em que o castelo perdeu funcionalidade. Mais acima, a
ermida de Nossa Senhora da Conceição foi transformada num excepcional
núcleo de arte sacra.
Deixemos
agora para trás Alcoutim e sua estrada fluvial para o mar, o Guadiana.
O destino é o interior da serra — Fonte Zambujo. No cruzamento do
Pereiro, vira-se à esquerda. Um espaço museológico recria «a construção
da memória»:
desde
a palavra (o falar em verso) à «manipulação do quotidiano», através
das práticas curativas, não esquecendo o ciclo da terra.
Retoma-se
a estrada na direcção de Martim Longo. Em Farelos, no Núcleo de
Giões,
retrata-se a mais significativa actividade artesanal serrana, a
tecelagem: vidas de tear, o sustento transformado em passadeiras e
mantas. Mais à frente, em Santa Justa, reconstrói-se o tempo de
aprender na época do ensino único e do livro único, a que mesmo assim
só alguns tiveram acesso — o espaço da escola transformado em museu.
Adiante está Martim Longo. A matriz, com portas góticas e o inferior
acolhedor de três naves, tem marcas do século XVII. Na R. do Azinhal
esconde-se uma olaria mantida por cinco mulheres. Recriam caçoilas,
alguidares, cafeteiras e outros utensílios domésticos, decorados com
pintura singela (tel. 281 498 641).
Também em Martim Longo, a Tia Anica, cozinheira praticante em
Rabat (Marrocos) mas regressada à terra, preserva a verdade da cozinha
serrana — sopa de lebre ou porco com abóbora estimulam a gula de sóbrio
penitente.
Regressados
a Alcoutim, tome-se então o caminho que bordeja o Guadiana. Sinuoso, o
grande rio do Sul tem agora um espaço-memória — o Museu do Rio, em
Guerreiros do Rio, retoma o tempo em que, no séc. VIII a.C., o Guadiana
já
era via natural para os povos do Mediterrâneo. Depois foi o tráfego
dos minaraleiros, os barcos que transportavam o produto das minas de S.
Domingos, em Mértola.
Mas
o museu também mostra embarcações e alfaias usadas na pesca artesanal,
como a fisga para arpoar, com doze braços.
Texto retirado de Guia da Semana - Expresso, nº12 (Norte)
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