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O
ouro ou prata que foram antecipadamente fundidos e vazados em
rilheiras2
e batidos
em redondo numa bigorna, são levados a um dos orifícios da fieira. Dela
se faz emergir a ponta do fio a distender. Essa ponta é agarrada por uma
longa tenaz de hastes curvas, onde engancha a corrente de ferro ligada
ao eixo dum sarilho3 no
extremo banco. Corrido o fio, este, passa no estiolo mediatamente
inferior e assim sucessivamente até que se consiga obter a espessura do
cabelo. Este fio é então torcido com outro de igual espessura parecendo
formar um só e tornando-se no principal elemento da filigrana. A partir
daqui há que dar lugar à surpreendente técnica e imaginação do ourives
na formação de entrelaços, círculos ou SS, de ornamentos e imbricados.
Para curvar e enrolar o fio em SS emprega-se a buxela4.
Sobre o tabuleiro em ferro, o fio é torcido lentamente até se conseguir
a forma desejada e depois cortado com um dos gumes logo que o S ou
espiral atinjam o enrolamento e dimensão necessários. É através da
buxela que se obtêm os rodilhões. Procede-se, depois, ao
enchimento das armações. No seu interior vão entrar tantos rodilhões
quantos os necessários para formar a peça desejada.
Finda esta operação, que requer muita técnica, vai proceder-se a outra
não menos cuidadosa, a soldadura. O maçarico vai cumprir agora a sua
função. A soldadura terá
De ser executada de forma que não seja perceptível a olho nu, daqui
residindo a suprema habilidade do artífice.
A solda é formada por metade de ouro e outra metade compõe-se de um
terço de cobre e dois de prata, em Travassos porque, segundo fomos
informados, não acontece de igual modo em Gondomar, local onde
predominam os fabricantes de filigranas.
Uma
vez completa a soldadura da peça em ouro, esta vai ser recozida para que
desapareçam os efeitos do fumo e da soldadura. Enchem-se dois
recipientes de barro justapostos pelas bocas, com carvão de urze, onde
já foram introduzidos os objectos de ouro. Estes recipientes são levados
em seguida à forja onde vão ser aquecidos a alta temperatura. As peças
não serão prejudicadas com este aquecimento já que não têm contacto
directo com o fogo. Finda esta operação, as peças vão ser esfriadas e
levadas a embranquecer numa vasilha contendo uma solução bastante
diluída de ácido sulfúrico. Depois de limpar, irão a corar. Para o
efeito é preparada uma massa composta por 2 partes de salitre, 1 de sal
e outra de pedra-ume. Esta composição será devidamente misturada e
adicionada com um pouco de água, sendo levada a ferver e depois
arrefecida e seca. É nessa massa, previamente preparada com mais água,
que se vão introduzir as peças que serão levadas novamente ao fogo, até
que a pasta entre em ebulição. O amarelecimento mais ou menos carregado
depende do tempo que as peças demorem no fogo.
Finda mais esta tarefa, as peças serão areadas ou polidas com areia
fina, água e uma escova, operação que lhe vai dar o brilho que lhe
conhecemos. Voltam de novo à massa anterior para que, caso os haja,
sejam tirados quaisquer defeitos e fixarem o tom definitivo. Falta
apenas brunir, última operação que consiste na hábil do brunidor5
na peça.
Foi assim que vimos nascer inúmeras e lindíssimas peças de ouro ou
prata. Brincos ou arrecadas, fios e colares, cruzes e relicários,
pulseiras e braceletes, com extraordinários rendilhados, jóias que são o
enlevo das nossas populações rurais.
Em Travassos e Sobradelo da Goma, pudemos verificar as extraordinárias
possibilidades artísticas dos nossos artesãos da ourivesaria popular
tradicional. Há que preservar e acarinhar esta arte, enquanto arte. |