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(Continuação...)
O traje é uma das manifestações materiais que melhor servirá o indicador
a quem quiser distinguir o meio urbano e o meio rural. Com efeito, tanto
o traje rural como o traje urbano possuem marcas próprias,
reveladoras de diferentes formas de ver o mundo e estão subordinados a
sistemas de valores hierarquizados de modo diverso.
E se eventualmente podemos observar que por razões várias, se criam no
mundo rural mecanismos internos que favorecem a rápida adopção de
padrões de vestuário de influência urbana, e em constante mutação, o
mesmo não acontecia na época representativa nesta exposição. A sociedade
rural de então, mais fechada às influências urbanas, usava o mesmo
vestuário que as gerações anteriores, sendo as alterações lentas, e
incidindo mais no pormenor decorativo de gosto individual e nos
materiais de confecção, do que propriamente no estilo formal, sendo
este, ditado e sustentado pela rigidez de parâmetros rurais e
costumeiros.
Citamos o sociólogo Henri Merendas: «cada um veste o mesmo tipo de roupa
que todos os demais desde gerações atrás, mas cada roupa é diferente: as
mulheres não poupam trabalho para acrescentar um bordado ou uma renda de
maneira a diferenciar-se e poder ser mais bela».
Esta necessidade de diferenciação chegava mesmo ao extremo de utilizar
como marca decorativa individual, o próprio nome. Os homens exibiam-no
no peito da camisa de linho e as mulheres ostentavam as suas iniciais no
avental ou nas costas do colete.
Porém, não é apenas uma diferenciação de cunho pessoalista que se
manifesta no vestuário: há também um conjunto de características que
evidenciam os papéis que os seus possuidores desempenhavam na sociedade
rural, nomeadamente no tocante à posse de bens. Havia diferenças no
traje de um jornaleiro e no de um lavrador abastado; mais ligeiras no
traje de trabalho, mais vincadas no traje que se levava às festas,
distinguiam-se não só pelo quantitativo das peças arrecadadas nas
«caixas de limpeza», mas também pela qualidade e consequente custo de
materiais de confecção e adorno.
Como sabiamente afirmava a senhora «Felisbina», antiga costureira, «o
traje é como a pessoa, a qualidade não é toda uma».
Ao nível da representação, na mente popular figurava que «luxar não era
para os pobrinhos». Vestir bem, ricamente, era sinal de «teres»
prestigiantes.
Efectivamente, chegaram até nós alguns trajes de cerimónia que revelam
bem a capacidade económica daquelas para quem foram feitos. |