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(Continuação...)
No trajo doméstico usam, em
vez de blusa, uma bata de riscado, sempre larga à frente
e pregueada atrás na cintura, de maneira que as costuras fiquem
bem justas. A gola é alta e as mangas apertadas nos punhos e às
vezes com canhões.
A saia de cima é rodada, fazendo uma
caudazinha atrás, que elas nunca levantam para se livrarem do pó
nas ruas da povoação, contrariamente ao que sucede, quando se
dirigem para as vilas ou cidades: pois levam-na enrolada,
deixando ver só a saia de baixo, que é branca e rendada e com
folhos engomados. Isto prova bem o à-vontade no campo e a
cerimónia com que entram nos povoados.
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Por baixo da saia há o saiote, que é
geralmente encarnado e debruado de fito. Encostada ao saiote no
lugar do quadril, onde a saia tem uma abertura, há uma algibeira
completamente separada da saia e do saiote, presa à cintura com
uns atilhos. Esta algibeira que tem o nome de patrona é
decorada de trança, em que as cores primárias predominam. A
patrona serve para guardar chaves e dinheiro e, às vezes, o
lenço, nas criaturas de idade. Nas raparigas o sítio
característico do lenço não é na mão, pois na mão trazem elas as
flores, á na cintura. O lenço é bordado a linha com frases
amorosas em prosa ou em verso.
Para terminar esta breve descrição
do vestuário da mulher da minha província, direi que ela anda
sempre calçada. Usa sapato sem meia. O sapato é branco e de
cabedal, como vem da curtidura. Têm ilhós e são atados por uma
correia e outras vezes por atilho amarelo. Ao domingo usam
sapato preto com meia feita de linha. Cumpre-me frisar que hoje
já muitas usam bota assim como vestidos que a moda vai impondo.
Hoje a camponesa do Algarve ou montanheira, como lhe
chamam, obedece quase aos caprichos do figurino como uma dama da
cidade, havendo já nas suas vestes um quid de bom gosto.
O que há, no entanto, que revela falta de graça, de beleza e de
elegância é o bico. O bico é uma farpela inquisitorial, usada
apenas em Olhão por algumas dezenas de pessoas de classe baixa.
A sua cor negra e sepulcral é um escárnio do lindo azul do céu e
do mar e é, sem dúvida, uma gargalhada do Demónio a uma obra
admirável do Rei da Natureza – o Algarve. O bioco é um trajo
verdadeiramente extraordinário. É um capote pesado e comprido,
que encobre o corpo até aos pés. Este capote, que é de farto
cabeção, é encimado por xale preto, que se põe sobre a cabeça e
se enrola em forma pontiaguda, formando em frente do rosto um
tubo cónico terminado por um orifício. É através dessa abertura
que a mulher, que do mundo se esconde, nele lança o seu olhar
curioso. A psicologia que o bioco encerra é deveras
interessante. É ele que encobre a mulher que deseja ir à igreja
assistir ao certo casamento para, ao sol-posto, sentada à sua
porta, contar às vizinhas o que viu. É ele que encobre a beata
que quer andar sempre à roda dos santos. É também ele que
esconde a pobre viúva, que estende com vergonha a mão à
caridade! |