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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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Pub Trajos dos Açores  
  Trajes Micaelenses

O trajo que mais dá nas vistas dos visitantes da ilha é sem contradição o capote e capelo, usado pelas mulheres. Consiste ele em uma rodada capa, sempre de pano azul, distinguindo-se pelo capelo, que tem feitio particular e que, excluindo os usados na ilha de Santa Maria e na do Faial, muito parecidos, não consta existirem iguais em outra qualquer parte. Estes capotes pesados, e que nos afiguram incómodos, oferecem contudo vantagens às pessoas costumadas a usá-los, que quase em geral são pessoas menos abastadas, não sendo contudo raro vê-los de custo superior a trinta mil réis. Nalgumas freguesias rurais existe também outra forma de capote, que consta de uma capa de pouca roda, com um pequeno cabeção, usado a maior parte das vezes pendente da cabeça.

Em tempos, que não vão longe, o que mais se distinguia nesta ilha eram as carapuças usadas pelos aldeãos. Conquanto o seu feitio fosse desconhecido em outra qualquer parte do Mundo, como o afirmavam ilustrados viajantes, e até certo ponto ridículo, não deixavam, contudo, de oferecer comodidade. A respeito desta carapuça escreveu há anos o distinto escritor Sr. Francisco Maria Supico o seguinte: «O luxo do camponês micaelense, pelo que só a ele diz respeito, pode dizer-se que se manifesta na carapuça. Usa-se de custo excedente de 7200 réis; e a forma com ser singular, e até manifestar as diferenças de localidade por modificações no feitio, não deixa contudo de ser muito cómoda. As palas, bicudas ou redondas, são amplas sempre e por isso bom resguardo do sol e da chuva. Caem da copa até aos ombros boas tiras de pano, que agasalham das ventanias do Inverno, e não afogueiam no Verão, pela facilidade de as levantar. Se urge a necessidade, lá está o colchete ou botão que a conchega mais, apertando-a por sobre a barba, embora fiquem assim escondidas as bordaduras da camisa de linho, nem sempre fino, em que se revela o mérito da consorte ou da filha para os trabalhos da agulha.» Hoje é raro ver-se uma daquelas carapuças, porque a moda tem quase desaparecido, e alguma que por acaso aparece é tão modificada que a muito custo dá ideia das antigas.

É belo ver nas aldeias as mulheres em seus trajos domingueiros. Seus vestidos de cassa branca ou chita, alegremente enramada, seu amplo lenço, sempre de cores vistosas, seus sapatos decotados, caminhando ligeiras, frescas e rosadas para a igreja paroquial, onde a última badalada do sino as advertiu de que o pároco vai subir ao altar.

Se algum orvalho as apanha, ou o frio é intenso, a ampla saia do vestido virada para cima e cobrindo-as da cintura até à cabeça lhes serve de resguardo. Mas o que ainda tem maior poesia é vê-las de volta da fonte, pés nus, saia enrolada à cintura e com a talha ou jarra à cabeça, direita ou inclinada, conservando sempre perfeito equilíbrio, caminhando desembaraçadas…

De um artigo de Joaquim Cândido Abranches, intitulado Costumes Populares Micaelenses


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Informações e foto retiradas de "ETNOGRAFIA PORTUGUESA" - Livro III - José Leite de Vasconcelos
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