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Não vai muito longe o tempo em que Lisboa
acordava, logo após as primeiras luzes da aurora, ao som do vozerio dos
saloios apregoando por toda a cidade os bens essenciais trazidos do
Termo com que nutriam as gentes da cidade.
A pé ou em seus burricos, os saloios formavam um tipo sui-generis de
graça e cor que há muito o alfacinha se habituara a não dispensar.
Lisboa não era só a tagana varina canastreira, mas igualmente a
alcandorada saloia garrida. Uma e outra davam vida e movimento ao bem
típico espírito popular, misto de bairrista com campesino.
O grande olisipógrafo Júlio de Castilho (in Lisboa – Revista Municipal,
n.º 116-117, pág. 73, 1968), no seu estudo Pregões de Lisboa, Música do
Coração do Povo, escreveu:
«A melopeia dos pregões é música, deliciosa música, nativa no coração do
povo. Em cada nota diz-nos muito; na letra e na harmonia solta eflúvios
de campo, lembra as hortas do Areeiro, os pomares de Benfica, as latadas
de Loures, a fragrância das sebes nas sombrias azinhagas, as fainas das
bandadas casaleiras. Pregões da Primavera no Bairro Alto, nas vielas de
Alfama ou do Castelo, lembro-me bem das íntimas saudades, que na mente
dorida me acordáveis, quando, longe dos meus, em plaga estranha, destes
torrões natais curti a ausência. Escutava na memória da alma as sabidas
vetustas melodias dos pregões desta mágica Lisboa…»
Diz, ainda, Júlio de Castilho: «Há pregões ternos e melancólicos; há
outros engraçados e burlescos; há outros indiferentes, sem inteligência
e sem cor; uns são preguiçosos e estiraçados como lazarones; outros,
finos e flexíveis como enguias; outros, fleumáticos e calculistas como
os onzeneiros da Rua Nova; uns são gordos, outros, magros; estes são
garotos, aqueles circunspectos. (…) Em suma: o pregão é feição
especialíssima da comédia das nossas ruas, e espelho do carácter
nacional de uma classe. O certo é que, salvas algumas excepções, os
pregões de Lisboa são afectuosos, afinados, e teatrais.
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