Sobre este tema aliciante, não deixo de aconselhar o interessante estudo de Amália Caetano, Medicina Popular na Região de Mafra, inserto no Boletim Cultural´94 publicado pela Câmara Municipal de Mafra.
Quanto aos exemplos que Maria Lila Costa dá da feitiçaria popular na Murteira, a verdade é que os mesmos acontecem também em todo o interior rural do Concelho de Loures, pois deparo com crenças idênticas em Bucelas, Lousa, Pinheiro, etc., para não falar nos de Odivelas, Sintra e Mafra.
Acreditava-se na existência de lobisomens, labisongos, meio-homens e meio-lobos que ficaram assim por serem munto pucadores, dando-lhes Deus como castigo transformarem-se em bestas demoníacas todas as meias-noites de Lua Cheia. Os fantasmas, pantasmas ou búltemos, eram outra crença. Com eles só os médiuns ou “intermediários” podiam comunicar directamente. Como não podia deixar de ser, numa sociedade rural fechada, tais médiuns, geralmente mulheres, eram muito concorridos pelo povo local e dos subúrbios, assediando-os com os mais diversos tipos de pedidos que, se fossem satisfeitos, lograriam para tal médium a fama de «pessoa de virtude» e «uma santa», não importando que «a igreja não aceite, porque o padre não sabe senão as rezas escritas no Livro e que não me curaram dos males que a bruxa da vizinha me fez, mandando-me búltemos»…
De passagem mas com importância maior do que se possa presumir, anoto que o exercício da mediunidade e a prática de todo e qualquer culto animista encontra pela frente a desaprovação total da Tradição Espiritual assumida por toda e qualquer corrente religiosa tradicional (seja católica, islâmica, judaica, hindu, etc.), mas o desenvolvimento deste tema não vem ao caso e, por conseguinte, prosseguirei o presente.
Rosa Lila refere ainda, para além das benzeduras e rezas utilizadas pelos endireitas dos ossos afectados e das más colheitas, havendo nisto, mais uma vez, certo sabor de nostalgia druídica, algumas regras de astrologia agrícola e mesmo cabalística. Por exemplo: os sentomas davam-se de 3 a 14 de Dezembro, quando os velhos, reparando no estado de tempo, prediziam que as condições meteorológicas de cada um dos doze dias corresponderia ao estado de tempo de cada mês do ano seguinte. Também se acreditava na influência magnética das fases da Lua, agindo nos diversos aspectos da vida quotidiana; assim, toda a novidade hortícola deveria ser semeada sempre em quarto minguante, e as galinhas recolhidas sempre em quarto crescente. Os números nonos, isto é, nunes ou ímpares, preferiam-se aos números pares: na quinta-feira da Ascensão guardavam-se, para dar sorte e ter pão todo o ano, 3, 5 ou 7 espigas de trigo; para o fabrico de chouriços, esperava-se que a carne estivesse de conserva 5, 7 ou 9 dias, para que ficasse bem curtivada e não se estragasse durante o ano.



