Mas esses ingredientes celtas, judaicos e árabes, de uma forma ou de outra, por norma entram todos juntos no imobiliário das lendas saloias, susceptível de explicar a Vida e a Morte num contexto marginal ao crédito científico e à religião por todos aceite mas “à maneira de cada um”, assim o plural presente sujeito ao singular assente.
Imobiliário esse até há pouco tempo atrás sustentado pelos velhos da terra e pelas «pessoas com virtudes», com dotes sobrenaturais capazes de falar com os «espíritos», fazer quebrantos e enguiços, enfim, as bruxas d’aldeia. Elas eram o pilar-mor da religião popular, mais animista que espiritual, reunindo num mesmo efeito causas divinas e diabólicas.
Em Loures, como em todo o território saloio, o que o padre-cura não resolvia consertava a bruxa ou a curandêra. Maria Rosa Lila Dias Costa (in Murteira – Uma Povoação do Concelho de Loures. Junta Distrital de Lisboa, 1961, com reedição em Dezembro de 1993), conta que na Murtêra não era estranho nem misterioso as pessoas, mais mulheres que homens, consultarem pessoalmente a feitecêra.
Contudo, os saloios fazem distinção entre bruxa, a mulher que faz males ou bruxedos, e curandeira, que por meio de benzeduras vê e cura o mal que as bruxas fizeram.
As bruxas, geralmente médiuns, na magia campesina representam por norma o lado psíquico e lunar da Natureza, enquanto as curandeiras, não raro «endireitas» dos ossos quebrantados e conhecedoras de plantas medicinais com que exerciam a sua medicina, agem assim como as antigas druidisas assinalando o lado espiritual e solar da Natureza. Talvez por isto o exercício de «endireitar ossos» e da ervanária seja exercido maioritariamente por homens, pólo sexual positivo, activo ou solar, enquanto a actividade mediúnica cabe sobretudo a mulheres, pólo sexual negativo, passivo ou lunar.
Essa distinção entre mulheres de “bem” e de “mal”, recorda o episódio homérico da perda do sentido de sacralidade pelas vestais, sibilas e pitonisas ao ponto de se transformarem em simples adivinhas animistas, degredadas para fora das urbes por causa da sua influência nociva, o que se regista ainda hoje nas bruxas que vivem isolados e marginalizadas da restante sociedade, principalmente nos lugares rurais onde a magia campesina disputa as almas a par da religião de facto.



