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(Continuação...)
O saloio defendia-se sempre, na sua habitação, das nortadas. Para o lado
do norte, a casa geralmente não tinha janelas. Na arribana as teias de
aranha eram mantidas, porque “fazia mal tirá-las”, e para aconchego do
gado. Dava-lhes uma quentura especial que beneficiava o ambiente. O
água-vai do saloio, era o indispensável condimento para que o mato se
transformasse em estrume, que era uma das grandes riquezas do pequeno
lavrador saloio. Ele não perdia pitada do água-vai, e o mato que o
recebia, apodrecia e ganhava aquela fortaleza que o tornava o melhor e o
mais barato dos adubos.
A casa era geralmente caiada de branco e a telha tradicional era a
mourisca, em telhado mourisco de duas águas. As mais evoluídas
apresentavam quatro e desenvolviam-se em dois pisos.
A principal distinção que pode fazer-se é entre a morada cujos
habitantes eram de lida ou à jorna. No primeiro caso, existiam anexos –
palhêros ou abogoarias – para acomodação do gado e alfaias; no segundo,
somente as divisões destinadas a habitação.
Os saloios mais folgados, com maior pé de meia, tinham casas maiores,
com o rés do chão lajeado e uma escada exterior para o sobrado, onde
estavam os quartos para toda a família.
A porta tinha um alpendre formado de três lajes e lambris pintados de
azul ou vermelho. Assim a casa passava a ter dois pisos corridos: o
térreo – as lojas – como arrecadação de aprestos de lavoura, abogoaria,
etc., e o andar nobre como local de habitação (cf. Benfica Através dos
Tempos, por Padre Álvaro Proença. Lisboa, 1964).
Mas há outro motivo de grande beleza nos solares saloios: o portão do
pátio. O frontão que o encima geralmente revela apurado sentido
estético, com o seu fino recorte, ladeado por volutas de cal e areia,
terminando por elegante pináculo. Tais ornamentos são milagres de
alvenaria. Não é raro que enquadrem painel de azulejos com Nossa Senhora
ou São Marçal, este para livrar a casa de ladrões e incêndios, ou ainda
Santo António, santo brejeiro e meio pagão na crença popular.
As casas e solares saloios, testemunhos da vivência humana e sagrada do
“homem do campo”, ainda hoje e mesmo que rareando, são património a
preservar e divulgar, nisto, no que nos toca como concelhio, pelos
devidos órgãos dos Municípios de Loures e Odivelas, a bem da Cultura
Patrimonial deste belíssimo pedaço do Termo dos Saloios.
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