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Em todo o mundo e particularmente na Europa, o progresso social,
cultural e técnico fez com que aquelas camadas sociais, a que ainda hoje
chamamos “povo”, abandonassem os seus modos de vida tradicionais, muitos
dos seus seculares usos e costumes, toda uma cultura popular tradicional
que os caracterizava. A fuga dos campos para os centros urbanos onde a
indústria ia ganhando campo, a passagem de grandes contingentes humanos
da sua realidade rural a uma realidade operária, a implacável sedução
que cada estrato social nutre pelos estratos que imediatamente lhe são
superiores, as facilidades de comunicação de hoje, um mais fácil acesso
à alfabetização e à instrução mínima... foram fenómenos sociais |
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que vieram, por vezes, desvirtuar e
quase aniquilar as principais e mais individuais características da
chamada “cultura popular tradicional”, logo, daquilo que entendemos como
sendo o Folclore.
Sem dúvida que a criação – e, depois, a proliferação – de grupos de
folclore é um salutar fenómeno, mas nem por isso deixa de ser um
fenómeno saudosista: privados de, no dia-a-dia, daquilo que espiritual e
sentimentalmente, social e culturalmente sempre caracterizara a Grei a
que, desde sempre, haviam pertencido, as camadas populares –
particularmente, as rurais – viram na prática das suas canções e das
suas danças tradicionais e no uso dos seus trajes regionais que um grupo
de folclore lhes proporcionava, um meio – talvez o único – de
continuarem a pertencerem a essa Grei. Ao levarem até ao público mais
ampliado e diversificado essas velhas canções e danças e esses belos e
evocadores trajes, era, e continua a ser, uma mensagem de regresso a uma
dada pureza de origem e de personalidade individual que eles, os grupos
de folclore, estavam proporcionando. Aí reside, sem dúvida, o interesse
e o entusiasmo que grande número de pessoas nutre pelo folclore.
Mas para que da
música, das
danças e das
canções praticadas e dos trajes regionais
usados pelos grupos de folclore grande número de pessoas pudesse
usufruir, era necessário apresentar em público esses exemplos e aspectos
da cultura popular tradicional. Esta exigência, aliás natural e justa,
conduziu os grupos à invenção – ai de nós ! por vezes – dos chamados
“festivais de folclore”. O êxito dos grupos e dos festivais de folclore
junto de largas camadas do público proporcionou – até porque há quem
tenha descoberto que com o folclore se faz dinheiro e se ganha posição
social – este vulcânico e trágico proliferar de grupos e festivais de
folclore.
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