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Que entenderemos hoje, então, por “festa popular” ? Será ela apenas a
festa profana ? De forma alguma, pois existem ainda em inúmeros países
considerados nações evoluídas festas religiosas que são eminentemente
populares. A própria romaria, acontecimento religioso e social que,
desde a Idade Média, tão arreigado é entre nós, portugueses, a própria
romaria, dizia eu, com as suas duas componentes – a religiosa e a
profana – acabou por se tornar, sobretudo no século passado, um
acontecimento em que a festa profana – o chamado “arraial” – prevaleceu
sobre a festa religiosa e se tornou mais importante, grandioso e
participado do que esta. |
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Apesar da solenidade da celebração da Missa de
festa e da Eucaristia e da pregação do eloquente sermão, a festa
gastronómica, com a ingestão de manjares próprios e abundante vinho por
entre toques de música, cantares, dichotes e brincadeiras, é, de longe,
muito mais participada, até porque se prolonga na antecipação do arraial
do fim do dia e da noite. É certo que a procissão – entre a festa
gastronómica e o princípio do arraial – tem quase que uma participação
total quer dos que nela se incorporam quer dos que, fazendo alas no seu
percurso, a ela assistem; mas isso é compreensivo porque – perdoem-me a
quase heresia – uma procissão é o espectáculo é a “Festa”. E à noite –
perdoem-me, por favor, mais esta heresia – o arraial é mais uma festa
báquica do que uma festa cristã... talvez até (seguramente, creio eu e
apenas não eu) porque o arraial é, então, o ressuscitar no subconsciente
das gentes de milenários e arcaicos rituais primitivos, de milenárias
festividades pagãs. Cientificamente, quem sabe qual a origem da maior
parte das romarias ou se elas não são apenas uma transformação de
rituais pagãos?
Se considerarmos que o folclore é o conjunto de usos e costumes,
práticas sociais e religiosas, tradições e expressões orais, musicais e
coreográficas de milenária origem e secular evolução que permaneceram
numa dada região ou num dado grupo étnico e cultural evoluído,
facilmente descobriremos o interesse que a “Festa” encerra no âmbito dos
estudos antropológicos.
Mas, que é “festa popular” hoje? A
romaria já tão descaracterizada pela
presença de vendedores e altifalantes e pelo comércio de restaurantes e
comes e bebes? Os concertos de bandas, conjuntos e cantares de rock? Os
encontros de futebol que por vezes redundam em aguerridos confrontos
físicos como outrora as romarias proporcionavam não menos aguerridos
confrontos de paulada? O comício político-partidário com igual
participação de oradores políticos, conjuntos musicais e cançonetistas?
Os festivais de folclore?
Pois bem! Os festivais de folclore! Os
grupos de folclore!
Os grupos de folclore – alguns deles de tão discutível autenticidade e
tão baixa e pouca qualidade – são uma bela a recente invenção surgida
nas últimas décadas da primeira metade deste nosso século cujo próximo
final coincide com o final do milénio.
Todos nós sabemos que o interesse pelo folclore surgiu nos princípios do
século passado. É um fenómeno de inspiração liberal: perante o
desaparecimento político de algumas nações, a integração de alguns povos
em nações mais poderosas ou de maior progresso e a submissão de inúmeros
grupos étnico-culturais e religiosos por outros grupos de cultura e
passado histórico diferentes – convulsão política e social que deu os
dramáticos compungentes resultados a que, em várias partes do mundo,
estamos tragicamente assistindo – os valores culturais tradicionais
dessas nações e desses grupos surgiram como único argumento lógico e a
única realidade política de força para a reconquista da sua
independência e da sua liberdade; os nacionalismos são uma faca de dois
gumes mas podem ser, por vezes, a única esperança de alguns povos, de
algumas nações. O folclore, sabe-se, não se restringe apenas a
canções,
melodias, danças e
trajes. Mas estes são os aspectos que aqui convém
analisar. |