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«Colecções
Etnográficas e Museus Etnográficos: objectos e memórias da Cultura
Popular» - comunicação apresentada ao Congresso de Cultura
Popular na secção Etnografia e Património Etnográfico,
Maia, Dezembro de 1999
por Sérgio Lira[1]
Resumo
Aquilo a que se convencionou chamar Cultura Popular viu alguns
dos seus conteúdos vertidos em colecções etnográficas e em museus
etnográficos. Este movimento de cristalização da Cultura Popular
conheceu alguns momentos especialmente significativos ao longo deste
século, em particular em Portugal.
Um desses momentos prende-se com a actividade desenvolvida por um grupo
de investigadores intimamente associados à realização do que actualmente
se chama Museu Nacional de Etnologia. No entanto, antes dessa fase é
possível descortinar outras etapas importantes no processo de
valorização da Cultura Popular. Tal é o caso dos processos da
utilização nacionalista dos símbolos e dos objectos de cultura popular
realizados pelo Estado Novo, em especial ao longo dos finais da década
de 30 e no decénio seguinte. O Museu de Arte Popular nasce nesta
sequência e permanece até hoje inalterado em muitas das suas
características. Mais recentemente é possível observar um movimento
endógeno de preservação da herança da cultura popular, especialmente no
que respeita à cultura material dos meios rurais que vão deixando de o
ser.
Este processo de preservação da ferramenta material associada à cultura
popular é, em alguns casos mas nem sempre, acompanhada de outras
preocupações: preservação da memória associada aos objectos, recolha de
testemunhos dos seus fabricantes e utilizadores, integração do
instrumental tradicional nos ambientes que o geraram, entre outras. Por
outro lado a acessibilidade a estes conjuntos de objectos compreende
soluções muito diferenciadas. Há casos em que nos encontramos perante
colecções que não mais são do que isso mesmo, uma vez que não garantem a
qualquer público o acesso desejável; por outro lado outros conjuntos
organizados em colecção foram constituídos em museus, garantindo não
apenas o acesso público como também os outros requisitos que actualmente
fazem parte da generalidade das definições de museu vulgarmente aceites.
Sobre estas questões versará a comunicação que propomos, incidindo na
análise de alguns casos exemplares que podem ser empregues como
paradigmas dos processos referidos.
Introdução
Um Museu não existe sem colecções. Parece pacífica a firmação, apesar de
levantar algumas interrogações e dificuldades do âmbito teórico que têm
gerado profunda reflexão e alguma dificuldade de consenso[2].
De facto, o Museu enquanto instituição, sempre se fundou na existência
de colecções, assumindo esta palavra o sentido mais linear possível:
conjuntos de objectos. No entanto, esses "conjuntos de objectos", no
museu actual, passaram a exigir a convergência de tais e tantas
condições que o termo "colecção" assume hoje em dia um carácter
excepcional, quando aplicado aos museus. Uma colecção tem que ter
coerência interna, implica uma política aquisitiva, exige quem dela
saiba cuidar tanto nos aspectos físicos de conservação e de restauro
quanto nos aspectos relacionados com a investigação científica associada
aos objectos que a compõem, demanda uma clara definição das razões, dos
critérios e dos processos que presidem à alienação de algum dos seus
componentes, carece de acessibilidades públicas tanto em termos de
alcance físico como em termos de interpretação dos objectos e dos
conjuntos, origina, enfim, ainda um vasto leque de outras implicações
aparentemente menores mas de vital importância para que se possa, com
propriedade de linguagem, usar o termo "colecção de museu".
E
se um museu não existe sem colecções isto não significa que possa
existir apenas com colecções. O museu actual é composto pelas suas
peças, pelas suas colecções, mas também e necessariamente, pelos seus
profissionais, pelo seu público, pelos seus arquivos e bases de dados,
pela memória associadas aos objectos e às colecções que cumpre ao museu
recolher, preservar e estudar[3].
De outra forma o "museu" passa a armazém, bem ou mal arrumado,
interessante ou desinteressante, mas tão-só armazém.
A
inversa do que acima se afirmou é, no entanto, verdadeira: existem
colecções (no tal sentido linear da palavra) sem museus. Colecções que
até podem ter público que as visite e alguém que lhes queira muito e que
delas trate o melhor que saiba e possa. Ainda assim não serão museu, se
não reunirem aqueles requisitos que, hoje em dia, se consideram
essenciais para que se afirme a existência de uma instituição com essa
designação. Mas quais requisitos? Não entraremos em longa discussão
sobre o tema, até pela inoportunidade da ocasião. Detenhamo-nos apenas
em três definições tidas por actuais, ou, dito de outra forma,
usualmente aceites:
Uma, é a tão conhecida definição do ICOM, aprovada em 1974 e que tem
sido sobejamente usada[4];
outras duas, eventualmente menos citadas mas que introduziram elementos
inovadores e de reflexão, são as definições da MA (Museum Association)
do Reino Unido. A primeira data de 1984 e apresenta uma longa série de
esclarecimentos dos conceitos usados na própria definição[5]
o que a torna algo difícil de empregar de forma expedita; a segunda,
datada de 1998, é o resultado de um longo processo de propostas e
contrapropostas, onde o comité de ética da dita Associação teve um papel
relevante, e que se saldou por um compromisso que avança em relação à
definição anterior mas que ainda exige alguns esclarecimentos anexos
para uma correcta interpretação[6].
Estas definições, de uma forma ou de outra, tocam de maneira clara duas
questões essenciais e que aqui nos interessam especialmente: um museu
não pode ser considerado como tal sem o seu público; o objecto de museu
será organizado numa colecção e esse conceito implica necessariamente a
existência de memória associada ao objecto. Estas duas questões são
centrais no que respeita ao entendimento actual sobre o "Museu". Sobre
elas pretendemos reflectir, especificamente no que se refere às
colecções e aos museus etnográficos, tidos genericamente como uma das
formas de preservar a dita Cultura Popular, objecto desde Congresso.
(...)
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