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O Museu de Arte Popular nasce do Pavilhão com o mesmo nome
organizado para a Grande Exposição do Mundo Português de
1940. Dentro do espírito nacionalista do Estado Novo[1]
a etnografia continental e ultramarina tinha um lugar de
destaque. Aliás fez parte dos planos originais desta exposição[2]
um acentuada tónica etnográfica que se consubstanciou na secção
colonial, nas aldeias portuguesas e no pavilhão de Arte Popular.
A secção colonial era um vasto recinto ajardinado onde foram
recriados ambientes dos territórios de além-mar[3]
nada faltando ao cenário, nem os nativos trazidos das colónias,
nem os animais também especialmente transportados, nem as
espécies botânicas ou os artefactos expostos; as aldeias
portuguesas recriavam os ambientes das várias regiões de
Portugal continental, autênticos cenários animados por homens e
mulheres trajando de forma típica que davam animação e vida às
recriações de ruelas, pátios, adros e praças.
O pavilhão de Arte Popular era uma criação à parte. No seu
interior todo o território continental estava representado na
panóplia da cultura material produzida localmente: da cerâmica
ao instrumento musical, do trajo à alfaia agrícola, pretendeu-se
mostrar o povo português nas suas produções materiais[4].
Supostamente estes objectos seriam autênticos; ao visitante
assim pareciam de facto. Mas nem sempre o eram. Por exemplo, um
pequeno ferro de queimar sobremesas cobertas a açúcar,
apresentado como autêntico da expressão da arte do ferreiro
local, ostenta numa das faces, gravadas no ferro, algumas
palavras de louvor a Salazar comemorando a data de 1940. Foi,
pois, feito de propósito para a exposição, como aliás tantos
outros objectos constantes do espólio do actual museu. Valia, à
época, não por este facto mas pela representatividade que lhe
era atribuída, por ser um ferro de queimar que fazia as vezes de
tantos outros, usados e re-usados nos lares populares
portugueses.
O Museu de Arte Popular herdou do pavilhão não apenas o nome mas
também o edifício, o espólio e a organização expositiva. E
manteve essa herança com tal esmero que ainda hoje o Museu de
Arte Popular é um testemunho quase inalterado do que foi o
pavilhão de 1940. Houve uns pequenos roubos de objectos, alguns
quebraram-se ou foram danificados, fizeram-se algumas aquisições
e alguns intercâmbios[5]
mas, no essencial, o museu é o que foi o pavilhão. E aqui, uma
vez mais, não houve o labor de recolher as memórias associadas
aos objectos; uma vez mais estamos perante colecções. De um
ponto de vista estrito poder-se-ía mesmo levantar a questão de
se estamos perante um museu: ao menos a interpretação falta
seguramente, como sempre faltou, excepto durante a exposição de
1940 quando aquele pavilhão era um objecto de uso
propagandístico, político e ideológico e, nessa perspectiva,
interpretava os objectos expostos de forma coerente e total:
eram objectos de cultura popular, a massa de que se fazia a
Nação, a argamassa da coesão nacional, o símbolo de Portugal.
De outro cariz é o Museu Nacional de Etnologia. Não cabe,
naturalmente neste texto, fazer ou refazer a história deste
museu. Quando escrevemos estas linhas o museu passa por um
processo de alteração das suas instalações e, quando reabrir ao
público, outra parte dessa história estará para ser feita.
Interessa-nos, isso sim, observar um aspecto particular da
formação das colecções desse museu, contraditório com o que
temos vindo a anotar para outros museus possuidores de colecções
de objectos etnográficos: referimo-nos ao facto de as colecções
do museu terem sido constituídas segundo critérios que eram à
época perfeitamente definidos e que almejavam objectivos
científicos perfeitamente claros[6].
Os objectos não eram escolhidos para integrarem as colecções
senão sob estritos critérios de representatividade e de
legitimidade, de forma a constituir colecções que mostrassem de
forma capaz a realidade material do país em determinado período
e para determinada região geográfica. O que se fez então[7]
foi, além de outras e importantes
actividades, de forma tão pormenorizada quanto foi possível, o
retrato da cultura material popular portuguesa. Ao contrário das
colecções de etnografia de, por exemplo, o museu de Leite de
Vasconcelos, classificáveis como de "erráticas"[8],
as colecções reunidas para o novo museu foram congregadas
segundo o espírito científico e perfeitamente sistematizadas.
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