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           Colecções e Museus; Objectos e Memórias

Alguns dos nossos actuais museus que incluem colecções de etnografia começaram a sua existência, ainda que sob o nome de "museu", como colecções de objectos etnográficos, recolhidos em conjunto com outros objectos (artísticos, arqueológicos ou até meras "curiosidades"). Estes "museus" amalgamaram assim uma diversidade de materiais de tal forma díspar que, ainda hoje, são casos difíceis de gerir[1]. Noutros casos encontramos o labor, mais ou menos sistemático, de homens dedicados e que, no amadorismo que caracterizou os inícios deste século, sob o impulso de legislação favorável[2], iniciaram colecções que vieram a transformar-se em museus; nessas colecções pontuam os objectos etnográficos, os arqueológicos e os de valor artístico; alguns desses museus ostentam hoje os nomes dos seus fundadores, e é possível descobri-los quase por todo o país.

Estamos, nestes casos, perante um processo que vai do objecto ao museu, passando pelo estádio intermédio da colecção mais ou menos sistemática. O que era valorado era o objecto em si, pela sua qualidade excepcional, pelo seu valor artístico ou pela sua importância arqueológica. No caso dos objectos etnográficos, os que aqui nos importam de forma especial, eram os valores de representatividade e de autenticidade que assumiam a hegemonia. Estes objectos eram coleccionados, conservados, mantidos, catalogados e expostos porque representavam um universo que se pretendia miniaturizar nos seus traços fundamentais e recriar nas salas do museu. A exposição pretendia-se um micro-cosmos da realidade exterior, um lugar onde fosse possível observar em conjunto toda a panóplia de cultura material típica de uma região e de uma época. Como uma fotografia documental, quase sem comentário ou tentativa de interpretação, este museu etnográfico pretende retratar uma realidade existente. Por vezes a sensação da possibilidade eminente de perda dessa realidade, de destruição pela voragem do tempo desse cliché de momento, era (e por vezes ainda é) também factor coadjuvante do esforço de museografar. Neste contexto, museografar era tido como equivalente a salvar, a prevenir o desaparecimento, para que os vindouros pudessem sempre no futuro conhecer como havia sido o instrumental de um grupo humano numa região e de numa época determinadas e, dessa forma, pudessem aquilatar da vida que esse grupo humano levava. Raramente se pensou em preservar as memórias associadas a cada objecto; uma carroça era tão-só uma carroça, representativa de tantas outras carroças, pela tipologia, pelos materiais usados na sua construção, pela técnica de a construir. Não pelos homens que a haviam idealizado, construído e usado. Esses ficavam esquecidos das colecções, não tinham lugar junto dos objectos que haviam sido seus e que perderam pela morte, venda ou doação, para a colecção etnográfica.

Desta forma estes museus tenderam a transformar-se em cemitérios de objectos agrupados segundo as suas funções anteriores e despojados dessas mesmas funções. A enxada deixa de ser enxada porque já não serve para cavar, mas representa todas as enxadas daquele tipo que já existiram e todas as que ainda cavam. Mas as mãos de quem a fabricou, de quem a manejou, desapareceram completamente; não sobrou qualquer memória do homem que suou agarrado ao seu cabo; não restou resquício dos seus pensamentos ou das emoções sentidas enquanto a dita enxada garantia o sustento dos meses próximos. Não há registo.

A herança que esta forma de coleccionar deixa é inevitavelmente parcelar: de um ponto de vista da cultura material podemos até ter um espólio admirável; de todos os outros pontos de vista estas colecções são muito pobres. E por isso as enxadas de um museu são tão semelhantes às de todos os outros, pesem as diferenças tipológicas, de material empregue e de técnica construtiva. Esta realidade é, as mais das vezes, definitiva: morreram os homens que fizeram e usaram as enxadas, não se sabe quem foram nem quem são os descendentes ou amigos, perderam-se inelutavelmente tantas e tão importantes informações. O que nos fica nas mão parece, aos olhos da museologia actual, tão residual como parecia completo aos que reuniram as colecções.

Na história dos museus com colecções etnográficas portugueses há dois casos excepcionais que valerá a pena referir por esse facto. Reportámo-nos ao Museu de Arte Popular e ao actualmente designado Museu Nacional de Etnologia. (...)

 

[1] Não será nossa intenção listar exemplos; limitamo-nos a referir um, entre tantos outros possíveis, por demais representativo do que vimos afirmando, ao menos à época em que o visitámos pela última vez., já lá vai quase uma década Trata-se do Museu de Penamacor, onde era possível encontrar animais embalsamados ao lado de peças arqueológicas e de materiais etnográficos.

[2] Referimo-nos, naturalmente, à legislação que a República produziu na defesa do património cultural, móvel e imóvel, e que se pode representar pelos seguintes instrumentos legislativos: decretos com força de lei de 19 de Novembro de 1910 e de 20 de Abril de 1911 e ainda a lei nº 1700 datada de 18 de Dezembro de 1924. Após estes textos outros os vieram complementar ou esclarecer, mas o edifício legislativo republicano estava construído. Após o 28 de Maio de 1926, e até 1932, a Ditadura Militar manteve e até elogiou esta legislação, retocando-a apenas em questões de somenos. As alterações de fundo foram lançadas na preparação do Estado Novo, conforme analisámos em LIRA, Sérgio - "Linhas de força da legislação portuguesa relativa a museus para os meados do século XX: os museus e o discurso político" in Actas do V Colóquio Galego de Museus, Consello Galego de Museus, Melide, 1998.

 

 

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