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RANCHOS,
ASSOCIATIVISMO E PODER POLÍTICO
Humberto Nelson Ferrão
1-
Em primeiro lugar começamos por defender o seguinte: os ranchos folclóricos
são associações como qualquer outra; mas o seu trabalho não parece
ser considerado como tal pelos próprios ranchos. Estes não se
comportam como se fossem uma associação com uma perspectiva global do
trabalho associativo, com outra capacidade para atingir os seus
objectivos mais facilmente; isto parece-me sem muitas dúvidas...
Fica-se
com a ideia de que os ranchos promovem só as suas actividades etnográficas
e que isso acontece “por obra e graça do Espírito Santo”, como é
costume ouvir-se. Não parece darem muita atenção ao trabalho
associativo propriamente dito, esquecendo-se que é ele o cimento e a
alma da existência de cada rancho, seja qual for o conceito-rancho
perfilhado. Deste modo há que tomar consciência disto, estar muito
mais atento às oportunidades e regras que existem para apoio cultural e
fazer o que fazem todas as Associações que não são de essência
folclórica - de teatro, de cinema, as filarmónicas...
2
- A grande maioria dos ranchos (apesar de já haver algumas poucas excepções)
ainda vai considerando o Folclore apenas como um determinado espectáculo-de-folclore
(baseado na dança, na música e no traje. E o resto?) sem capacidade de
inovação e de criatividade, perante um público assediado por outros
consumos culturais mais apelativos e mais inovadores (outro tipo de
espectáculos); não tem havido alargamento de públicos!?
Ora, esta forma de ver os ranchos folclóricos igual a espectáculo-de-folclore
é uma ideia tão forte e tão impregnada no sub-consciente (e no
consciente?!!) de “toda a gente” que a cruzada do movimento folclórico
para a alterar não está a dar os frutos desejados, num tempo já mais
que razoável...
Quem estuda e está atento aos fenómenos folclóricos (estudantes,
intelectuais e professores universitários), com base nas teses de
elaboração mais recente, tem razões para questionar aquilo que os
ranchos têm andado a defender, sem que o Movimento Folclórico ou quem
o represente esclareça as dúvidas.
Deste
modo, os dirigentes e decisores políticos ancorados nos estudos e na
reflexão mais desenvolvida pelas Universidades apresentam argumentos e
justificações legítimas para actuarem como até aqui, sem que os
dirigentes e folcloristas tenham conseguido apresentar uma estratégia
global de justaposição (que altere a situação??) e uma reflexão que
enquadre e justifique o Folclore Nacional, à luz dos novos
conhecimentos científicos que, cada vez mais, são produzidos por
investigadores e estudiosos.
(continua)
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