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(..) Natureza e tradição valorizam terra de Miranda
Miranda do
Douro conserva uma identidade cultural e um património natural que a
tornam única. E que começa a atrair milhares de visitantes, dinamizando
a vida económica local. A aldeia de Palaçoulo é um caso de sucesso.
Um escritor francês do século XIX maravilhou-se com o espectáculo das
juntas de bois a puxarem para terra as redes e os barcos da arte da
xávega. E escreveu a propósito do que vira na costa de Aveiro: "Estranho
país, este, onde os bois vão lavrar o oceano..."
Se tivesse visitado o planalto mirandês encontraria ainda maiores
motivos de espanto. Aqui os homens vestem saias para dançar coreografias
guerreiras ao som de gaitas de foles primitivas. Os burros só o são de
nome. A carne de vaca é comida à posta. A imagem do Menino Jesus da Sé
de Miranda usa espada e cartola. E, sobretudo, fala-se e escreve-se
doutra forma.
'La lhengua mirandesa' é tão antiga como Portugal. Deriva do leonês
medieval e não é de excluir que D. Afonso Henriques tenha negociado
nesse idioma o tratado de Zamora com o seu primo, o rei leonês, Afonso
VII, em 1143. Em Janeiro de 1999 o mirandês foi reconhecido como segunda
língua oficial portuguesa, sendo ensinado nas escolas locais, utilizado
nas placas toponímicas, etc. Recentemente o planalto mirandês esteve em
foco quando os jornais, rádios e televisões descobriram que havia uma
aldeia sem desemprego.
Como refere o geógrafo Carlos Ferreira, Palaçoulo conseguiu reproduzir,
à escala, o modelo da revolução industrial: juntar, de forma eficaz, os
recursos e os saberes locais. Uma natureza quase intocada oferece as
madeiras ideais para fazer pipos capazes de acolher os melhores vinhos
do mundo. E, das "palaçoulas", as navalhas com lâmina de fechar que os
homens levavam para o campo, nasceram novos produtos: navalhas modernas,
faqueiros, etc.
(...)
O facto de Miranda ser uma terra diferente - e de se orgulhar disso -
gera um potencial turístico que só ainda parcialmente está a ser
explorado. Exemplos a reter são a recuperação do burro mirandês, animal
dócil, forte, meigo e inteligente a partir da aldeia de Atenor, onde
funciona a Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino (AEPGA).
Esta promove passeios e iniciativas de divulgação da raça muito
frequentados. Sendim é um centro produtor de artesanato e local da
realização, em Agosto, do festival de música inter-céltico.
Ligado à realização desta iniciativa está o Centro de Música
Tradicional, agregado ao qual funciona a editora discográfica Sons da
Terra, com impressionante trabalho de recolha das tradições locais. E
para as apreciar localmente, nada melhor que visitar Aureliano Ribeiro,
na aldeia de Constantim, mestre da gaita-de-foles, da flauta pastoril e
do tambor.
Como explica Mário Correia, fundador do Centro de Música Tradicional,
sempre houve uma continuidade cultural entre o planalto mirandês e a
vizinha meseta leonesa e castelhana. Isso tanto se passa na música como
no resto. Localmente fala-se na "raia" em vez da "fronteira", e "dos de
Fermoselle ou de Moveros" em vez "dos espanhóis". Esta globalização
ibérica é levada ainda mais longe nos cruzeiros turísticos às arribas do
Douro Internacional. O empresário é espanhol, a tripulação do barco é
mista e os guias mudam de uma língua para a outra como quem pisca os
olhos. 60 mil visitantes anuais provam o acerto da escolha. |
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