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»» O saber não ocupa lugar >> Textos, Opiniões e Comentários Pub


LER A  MUDANÇA NO FOLCLORE :
APROVEITAR CONCEITOS JÁ INVENTADOS (2)

                                                                                                Humberto Nelson Ferrão

Tradição – “As “tradições” que parecem ou são consideradas antigas são bastante recentes, quando não são inventadas. “Por “tradição inventada” entende-se que seja “um conjunto de práticas, normalmente regulado por regras tácita ou abertamente aceites; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade em relação ao passado. Aliás, sempre que possível, tenta-se estabelecer  continuidade com um passado histórico apropriado”. A “tradição”, neste sentido, tem como objectivo e como característica a invariabilidade. Isto é diferente de “costume” (...) que não se pode dar ao luxo de ser invariável, porque a vida não é assim, nem mesmo nas sociedades tradicionais.” (in Hobsbawm, Eric e Ranger, Terence, A Invenção das Tradições, 1997.)

Etnografia – “No domínio da antropologia, o uso da palavra [etnografia] não é isento de ambiguidades e equívocos. Pode querer dizer a) “momentos de “recolha” e da “descrição” (...) que carecerão depois de tratamento analítico; ao contrário, b) outros defendem “que qualquer descrição é necessariamente interpretativa”...; c) outros afirmam que ela “não é apenas o inventariar de factos, é sobretudo elaborar narrativas circunstanciais (...) que visem sistematizar e tornar inteligível a diferença sócio-cultural, reconstruindo (...) as vivências e as categorias internas ao retalho da existência humana estudado”; d) outros ainda consideram que “serve para distinguir a encenação folclórica elaborada a partir de pesquisas intencionais daquela que se tem apenas a si própria como modelo”. Por isto tudo, “em que medida é que a “etnografia” dos antropólogos contemporâneos pode interessar aos folcloristas e em que medida é que a “etnografia” dos folcloristas pode interessar aos antropólogos?”. (in Vasconcelos, João, Análise Social nº. 158-159, 2001, p. 428).

Autenticidade / genuíno / verdade -  “Não há objectos nem práticas, não há espaços nem tempos “autênticos”; há coisas que são “autenticadas” por sujeitos concretos em contextos históricos definidos” [o mesmo se aplica a “identidade”, “tradição” e “memória”]. (in Vasconcelos, João, Análise Social nº. 158-159, 2001, p. 429).

Paradigma da estilização – “Faz do folclore um objecto em si que circula num mercado próprio e cujas propriedades devem ser condicionadas por essa inserção (in Vasconcelos, João, Análise Social nº. 158-159, 2001, pp. 399, 408/9).

Paradigma da reconstituição – “Faz do folclore representação tão fiel quanto possível dos costumes de outrora (p. 399); o objectivo de um rancho deve consistir em alcançar  o máximo de similitude entre representação folclórica e o seu remoto original” (in Vasconcelos, João, Análise Social nº. 158-159, 2001, p. 410).  Adianto eu que foi um processo iniciado em Portugal após o 25/4/74 e aqui na região baseado num marco aglutinador que foi o inconsequente I Congresso Ribatejano de Folclore (1978).

Identidade - Em vez de Identidade, devemo-nos esforçar por entender as IDENTIDADES. A Identidade não está ligada à ideia de homogeneidade nem de imobilismo social, que é a tendência mais forte do senso comum no campo dos ranchos folclóricos. A Identidade Cultural é reconfigurada no tempo e no entretecer das relações sociais em processos mais ou menos complexos. Esse processo identitário transporta grandes “ambivalências”, “conivências”, “infidelidades reciprocas” e impurezas na sua construção, porque “as Identidades Sociais se constróem por integração e por diferenciação, com e contra, por inclusão e por exclusão, por intermédio de práticas de distinção classistas e estatutárias, e que todo este processo, feito de complementaridades, contradições e lutas, não pode senão conduzir, numa lógica de jogo de espelhos, a identidades impuras, sincréticas e ambivalentes”. (in Pinto, José Madureira, Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 32, 1991).

É claro que muitos outros conceitos / concepções deveriam ser aqui afirmados, mas o artigo já está longo. Faço só mais uma chamada de atenção para os livros ou textos recentes atrás mencionados e acrescento, para já, só mais estes: Belmont, Nicole, “Le folklore refoulé, ou les sédutions de l’archaïsme”, L’Homme Revue, nº 97/98, 1986.  Silva, Augusto Santos, Tempos Cruzados: um estudo interpretativo da cultura popular, 1994.  Vasconcelos, João, Revista Etnográfica, Nº 2, (Etnografias e Etnógrafos Locais), ISCTE, 1997. Caetano, Paulo (Coord.), Marchas Populares 99, Ed. Equipamentos Bairros Históricos Lisboa, C. M. L. - Festas Populares, Jun99. Branco, Jorge Freitas, “A fluidez dos limites: discurso etnográfico e movimento folclórico em Portugal" in Etnográfica, 3, 1999.

Para perceberem o que anda a acontecer nos ranchos folclóricos e porque razões as coisas hoje são assim e não doutra maneira é que estes textos deveriam ser lidos pelos dirigentes folcloristas e seus apoiantes (!!), caso pretendam acompanhar os novos conhecimentos que estão à disposição de todos...

            hnelsonfer@cidadebcp.pt

 

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