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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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Breves Observações sobre a
Música Popular Portuguesa
(4)

Michel Giacometti (1982)

(Continuação...)
4. O último aspecto, a que nem sempre se deu a merecida atenção, diz respeito às tonalidades em que se estruturam bastantes espécimes do repertório tradicional. Assim, ao lado de um grupo majoritário de canções tonais (baseadas no clássico maior-menor), Fernando Lopes-Graça distingue três outros grupos formados por canções modais (onde dominariam o mixolídio, o frígio e o eólio), canções cromáticas, que assimila a modos, aplicando-lhes a qualificação de «exóticos», e canções, ou mais propriamente melopeias,

partindo de um «simples núcleo tetracordal ou pentacordal» (romance das segadas e certos cantos de romeiros, respectivamente, em Trás-os-Montes e na Beira Baixa).

As nossas breves observações não esgotam a inextricável complexidade do fenómeno musical popular, de que se não podem ignorar aspectos considerados de menor interesse musicológico, mas não de todo desprezíveis, pois que em boa verdade não são menos elementos desse fenómeno. Citamos, por exemplo, os chamamentos e diálogos entoados à distância (Trás-os-Montes, Minho e Beira Alta), as cantilenas da pedra (generalizadas), os ritmos dos cavadores no plantio do bacelo (Beira Litoral, Estremadura e Ribatejo) e o levaleva dos pescadores da sardinha (Algarve), que remetem para velhas culturas pastoris ou nos revelam os primórdios do canto.

Mas muitos outros problemas levantaria uma abordagem que se desejaria menos superficial, induzindo-nos, entre outras, a observações quanto à estrutura estrófica da nossa canção (predominância da quadra como suporte da melodia e sua extrema mobilidade) ou interrogações acerca da diminuta incidência da nossa música instrumental, do carácter um tanto estereotipado da coreografia popular, ou, ainda, da permanência, aqui e acolá, do canto liberto da metrificação regular, etc.

Dito isto, restaria considerar a situação presente da nossa música popular, inserida como ela se acha numa sociedade rural percorrida por correntes antagónicas. Na ocorrência, apenas nos é licito observar sucintamente:

1. A tradição oferece resistência frontal às músicas exógenas, mas apenas na medida em que ainda corresponde a necessidades sentidas colectivamente.

2. Da perda irremediável de espécimes, estética e socialmente preciosos, que teria sido possível conservar para a posteridade, não se pode inferir a fatal extinção a breve trecho do folclore musical.

3. Enquanto subsistir a subalternização social e cultural de vastas camadas da nossa população, ou seja, enquanto não surgirem condições para o nascer harmonioso de uma cultura nacional identificada com o devir colectivo, o folclore continuará a constituir o refúgio da criatividade popular, a imensa floresta onde se ocultam velhos segredos e se forjam novas esperanças.
_____________________________________________________
Publicado na Revista da JMP “Arte Musical”, Número especial, por ocasião da Quinzena de Etnomusicologia (Outubro de 1982), pp. 23 a 27.

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