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Breves Observações sobre a
Música Popular Portuguesa
(3)
Michel Giacometti (1982)
(Continuação...)
2. A música que costuma designar-se genericamente por música religiosa
ocupa um espaço inegável na nossa tradição, pela variedade e riqueza das
suas expressões. Oferece-nos ela derradeiros vestígios de estilos e
modos arcaicos, ao acompanhar cerimónias que a liturgia católica fixara
e, sobretudo, ao inserir-se em práticas exteriores ao culto.
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Assim, ao lado de músicas litúrgicas folclorizadas, outras há que
exerciam, ou ainda exercem, funções rituais libertas dos cânones ou
imposições eclesiásticas. Disso são exemplo os cantos de romeiro
baseados em incisivas fórmulas melódicas (Beira Baixa) ou estruturadas
polifonias (Minho,
Beira Alta, Beira Baixa e
Beira Litoral) e os cantos
de peditório das Janeiras e dos Reis (de
Trás-os-Montes ao
Algarve,
Madeira e
Açores).
Essencialmente vocal, esta música, inclui, todavia, elementos
instrumentais cuja função mágico-encantatória se acha patente no
repertório, por exemplo, dos gaiteiros do Nordeste trasmontano e dos
tamborileiros da raia sul-alentejana.
Observe-se ainda que raramente ela se exprime de maneira devota ou
exageradamente mística. Pelo contrário, transparece aí uma curiosa
liberdade na convivência com santos protectores e outras divindades a
quem são dirigidas rogações a visar fins utilitários imediatos.
3. O terceiro aspecto reside na curiosa omnipresença do
romanceiro,
assumindo funções diversificadas a reflectir a sua nítida implicação na
vida colectiva e doméstica das populações rurais. A sua difusão é
particularmente notável em áreas extremas do território, ou sejam, o
Nordeste trasmontano e o Algarve. Achamo-lo ligado naquela região às
fainas agrícolas, em especial à ceifa, sob a forma de canto alternado
(cuja melodia se desenvolve em geral no âmbito de um primitivo
pentacordo), enquanto no Sul parece perpetuar-se na velha tradição dos
cantos narrativos entoados aos serões. Neste caso, conserva o carácter
melódico dos velhos romances contados em «tom morto», que ainda podem
ouvir-se da boca de gente idosa em todas as zonas do País (inclusive nos
conselhos limítrofes da capital).
A sua interferência em ritos do trabalho (as já mencionadas cantigas das
segadas e, também, das malhas, da apanha das ervas, da fiação e
tecelagem do linho, etc.), em datas consagradas no
calendário cristão
(Janeiras, Reis, Quaresma) ou, ainda, em horas devocionais do dia e da
noite, assegura-lhe um lugar de predilecção na memória (e no gosto)
popular. Tanto assim é que sobrevive nas narrações circunstanciais de
cegos andantes e poetas vagabundos a testemunharem as suas sempre
renovadas florações. |