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Assim, a nossa intervenção limitar-se-á a sublinhar os aspectos mais
salientes do canto e, com eles, os mais pronunciados particularismos
regionais, atendendo, sobretudo, ao facto de terem sido eles em geral
recolhidos e avaliados de acordo com critérios de flagrante
subjectividade. Daí sucede, aliás, apresentar a nossa investigação
musical resultados fragmentários e de algum modo tendenciosos. Com
efeito:
1. Não passaram do papel os projectos oficiais de inventariação
sistemática da nossa tradição musical.
2. Deve-se a auscultação esporádica das suas fontes à iniciativa de
pesquisadores de rara dedicação que, todavia, nem sempre souberam evitar
o escolho da obediência a modas estéticas ou preconceitos de escolas ou
capelas.
3. Acham-se com frequência arredados das recolhas os espécimes que
porventura melhor poderiam definir a psique colectiva, tais como as
fórmulas elementares do trabalho, os cantos sociais e políticos, as
canções que registam as pulsações íntimas do homem rural, etc. Mais
gravosamente ainda, a matéria musical é-nos restituída não raras vezes
num estado de invulgar empobrecimento, devido a simplificações das
estruturas melódicas e harmónicas.
Nestas circunstâncias, o canto perdeu singularmente, na tradução que
dele nos é dada, a força telúrica e o significado de facto social
dinâmico.
4. Encarado sob um certo ponto de vista recreativo, o nosso folclore
musical adquiriu uma imagem caracterizadamente infantil e inconsequente.
Nesta ordem de ideias, as criações populares foram quase sempre tidas
por produtos culturais inferiores, isto é, resíduos ou adaptações sui
generis da chamada arte culta.
5. Do que ficou dito, poder-se-á concluir não ter a nossa pesquisa
musical acompanhado os progressos da investigação etnológica que, com
Teófilo Braga,
José Leite de Vasconcelos,
Jorge Dias e outros, conheceu
fecundo desenvolvimento na diversidade das suas perspectivas. Mas será
de observar, também, não terem sempre os mestres da nossa etnografia
conferido total importância ao contributo musical para o conhecimento do
homem português.
Deste modo, melhor se entenderá a nossa prudente reserva no que respeita
à desejável tipologia da nossa música folclórica, cujos fundamentos,
cremos, mister seria procurar em domínios aparentemente distantes. Com
efeito, afigura-se-nos estar a nossa tradição rigorosamente relacionada
com fenómenos de ordem geográfica, histórica e social, que nela
intervieram de modo indiscutível. |