Os
mais atentos, que em Portugal acompanham e vivem o mundo do
folclore, já se terão apercebido que o mesmo está repleto de
novas ideias, mas pena será que algumas venham ainda lançar mais
confusão num movimento que ainda se debate com a intromissão de uma
maioria não representativa, e se constata que muita gente que está
nos centros de decisão e faz as leis que nos regem - pelo menos tudo
o indica - não sabem o que é folclore. Certo que cada um de
nós é credor do direito de opinião, que no entanto não
pode ser imposto, mas que se respeita, se debate, e se aceita ou
contesta.
Temos por isso que conversar…
Pessoalmente, há que dizê-lo, não tenho qualquer dificuldade e
quando disso é caso, alterar os meus pontos de vista, da mesma
maneira que não consigo calar a minha discordância
quando a mesma para mim se justifica.
Vamos por isso “conversar” um pouco…
Vamos, pois, aos factos, e apenas aos factos, pois de
certo modo parafraseando António Sérgio, as pessoas não se discutem.
E começo por dizer, que estou baralhado, e como dizia o povo,
das duas, uma, ou já não percebo nada disto ou andam a
brincar com a gente.
Se bem percebi, há agora quem defenda que a diferença é saber
destrinçar no folclore o que é cultura e o que é recreio,
e pelo que julgo perceber em cada um dos nossos grupos coabitam os
componentes com motivações culturais e outros com motivações
simplesmente recreativas - o que mina a paz e a coesão associativa.
Quando das deslocações, uns procuram visitar museus e monumentos
históricos, enquanto outros vão refrescar para o Café; uns têm uma “entrada”
para levar algo em concreto, enquanto outros têm uma “saída”
para trazer qualquer coisa. E ainda que não pode haver “ranchos”
dado que estes acabaram entre 1910 e 1920.
Não sei se consegui transmitir aquilo que percebi, mas se algo
deturpei, desde já as minhas desculpas…
Ora bem, mas se está correcta esta minha interpretação, fico
preocupado pois o mundo do folclore que coabito é outro.
Claro que a “saída” de um “rancho folclórico” é
sempre uma “acção cultural” pois vai acontecer um “encontro
de culturas”, e sendo embora de aplaudir se alguns componentes
aproveitam o tempo livre para visitar
Museus e outros espaços de cultura, não se podem condenar os que se
vão refrescar para o Café, desde que o façam com dignidade.
Acontece até que é ali que os vários grupos ainda confraternizam.
O momento cultural é a demonstração/ espectáculo, quando os
agrupamentos tentam representar aquilo que as gentes de antigamente
faziam no seu tempo de recreio.
No fundo, digamos que apenas se trata de maneiras diferentes de ver
o assunto. Mas o mesmo já não posso dizer quando se pretende separar
os conceitos de rancho folclórico e de grupo de folclore,
atribuindo ao primeiro o papel de seguir as modas e divertir o
público com aquilo que são gostos instalados, enquanto ao segundo
cabe provocar o aparecimento de novas mentalidades, e surpreender o
público obrigando-o a reflectir.
De acordo que os ranchos terão acabado entre 12910 e 1920,que
de outro modo a sua designação não poderia hoje figurar na
terminologia do folclore.
Claro que é a minha opinião sobre factos e apenas isso, e só
não fiquei calado, porque o movimento folclórico ou
de folclore, como quiserem, está cheio de silêncios
que não podem continuar. Agora e para mim, rancho folclórico
e grupo de folclore são sinónimos.