|
Trata-se de uma tradição muito antiga, datada possivelmente do século
XVII e que se festejava na noite de quarta-feira da terceira semana da
“Quaresma”. Era, como se deduz uma festa pagã, hoje quase desaparecida
no nosso país, festejava-se de maneira diferente de terra para terra,
tendo como ponto comum, o “testamento”.
Mas, o que simbolizava a “Serração da Velha”?
Dizem uns que com a mesma se pretende”celebrar o renascimento da
Natureza e a expulsão dos demónios do inferno”, enquanto outros referem
tratar-se de “um rito de expulsão da morte,” ou mesmo de “ um ritual de
passagem mercado pelo desejo simbólico de renovação”.
Terras havia onde as “serradas” eram as velhas que acabavam de ser
“avós” ou solteironas que ainda” queriam casar”.Na maioria as pessoas de
idade nem apareciam à janela e quando o faziam era para lhes dar troco,
atirando-lhes com um balde água e não poucas vezes urina. Mas também
havia quem lhes abrisse a porta, lhes oferecia qualquer coisa, evitando
assim a “serração”.Claro que o boneco que simbolizava a velha era
queimado no final.
Talvez possamos definir a “Serração da Velha”— nalguns lados também
chamada de “ Serra da Velha” e “Serra das Velhas” - “como o enterro do
Inverno e o início da Primavera”, que marca um interregno lúdico no
calendário religioso.
E em Montargil, como era?
Não temos muitos elementos, diremos mesmo que temos poucos. Que me
lembre, não havia “boneca”, recordo-me vagamente, de uma “serração”,
feita há uns cinquenta /sessenta anos. A garotada fazia barulho, com
matracas ou batendo em tábuas, ao mesmo tempo que diziam os seguintes
versos:
Serre-se a velha “Barrinha”
lá do outro lado da ribeira,
Onde está a comer perna de burro
Pensando que é farinheira.
Mas o Freitas. Mais velho uns anitos, diz-nos que batiam em latas
fingindo que iam a serrar, e lembra-se ainda de duas quadras:
Serre-se a Angélica do Zé Mestre
que ela está a roer num pau;
deixou tudo aos Bexigas
não deixou nada aos carapaus.
Serre-se a velha Maria Luísa,
serre-se e torne-se a serrar,
porque ela tem ossos tão duros,
que nem a serra quer entrar.
Como se pode ver pela segunda quadra, a “serração” incidia algumas vezes
em casos da vida real. Mas o que mais uma vez é evidente, certo que
desconhecendo os costumes das terras vizinhas, é a enorme diferença em
relação a outras terras.
Não há boneca que no final seria queimada, o que aqui acontecia durante
a queima dos “compadres” e das “comadres”; não havia testamento, o que
por aqui se verificava no final do “Enterro do Entrudo”. E por falar em
testamento, e quando não se fazia o “enterro”,o senhor “António Júlio”
também aparecia no Outeiro apregoando as “deixas” que de maneira
satírica” contemplavam algumas figuras da terra. |