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A música no folclore de Montargil
 

 

Lino Mendes (Portugal)
 

(Continuação...)

E se o “cantar a casar”era sempre uma cantiga do trabalho, já as “saias” certamente a mais característica moda alentejana, o era também de festa.

Se as “saias” eram por vezes só cantadas --especialmente durante as “descamisadas” - também o eram bailadas ,e na maioria das vezes sem acompanhamento instrumental, aliás, no intervalo dos bailarico e quando o tocador de realejo ou de harmónio descansava, eram mesmo os bailadores que cantavam para que a função continuasse.

Diversas são as “melodias”, diversificado é também o aproveitamento das “quadras”. Em Montargil e tanto quanto sabemos, cantavam-se os quatro versos seguidos e depois repetiam-se o terceiro e o quarto e a seguir o primeiro e o segundo, ou então cantavam-se os primeiros depois e repetiam-se e depois o terceiro e quarto que se repetiam também.

Um exemplo:

Menina que tanto sabe
faça -me esta conta bem,
um moio de trigo limpo
quantas meias quartas tem

e a resposta:

Falaste no trigo limpo
mas não me falas no joio,
quatrocentas e oitenta
meias-quartas tem o moio

As “saias” eram cantadas a despique por homem e mulher ou então por duas mulheres, e só tocadas por homens durante as festas do” tirar as sortes”.

Na “tasca” onde só entravam homens, contou-se primeiro a desgarrada, com uma música própria, e mais tarde cantou-se o “fado”, de que deixamos uma “letra:

Ó fado que foste fado,
ó fado que já não és,
ó fado que estás virado
da cabeça para os pés

Ó cantador afamado
é agora ocasião
canta o fado à desgarrada,
daqui não levas gabão

Daqui não levas gabão
esta te vou a dizer,
se queres cantar o fado
inda tens que aprender

Tenho um saco de cantigas
inda mãos ma taleigada
para cantar toda a noite e
amanhã de madrugada

Havia naturalmente outras “modas”cantadas, como o Verdigaio e o Compadre Zé, o Malverde e o Passo Largo (são alguns exemplos) e até os Dois Passos eram por vezes cantados.

Quanto aos “instrumentos”, temos o “reco-reco” de cana e o pífaro também de cana (mais tarde de pau de sabugueiro) especialmente usado pelos pastores, mas não nos consta que se bailasse ao toque do mesmo; temos o harmónio (de 1 e de 2 escalas), acontecendo que o ritmo era algumas vezes marcado por um garfo (de ferro) numa garrafa.

De referir no entanto que nos primeiros anos do século, em 1904, os bailes da vila eram abrilhantados por uma tuna com clarinete (em dó), viola e rebeca, flauta transversal, e bandolim.

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