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(Continuação...)
E se o “cantar a casar”era sempre uma cantiga do trabalho, já as “saias”
certamente a mais característica moda alentejana, o era também de festa.
Se as “saias” eram por vezes só cantadas
--especialmente durante as “descamisadas” - também o eram bailadas ,e na
maioria das vezes sem acompanhamento instrumental, aliás, no intervalo
dos bailarico e quando o tocador de realejo ou de harmónio descansava,
eram mesmo os bailadores que cantavam para que a função continuasse.
Diversas são as “melodias”, diversificado é
também o aproveitamento das “quadras”. Em Montargil e tanto quanto
sabemos, cantavam-se os quatro versos seguidos e depois repetiam-se o
terceiro e o quarto e a seguir o primeiro e o segundo, ou então
cantavam-se os primeiros depois e repetiam-se e depois o terceiro e
quarto que se repetiam também.
Um exemplo:
Menina que tanto sabe
faça -me esta conta bem,
um moio de trigo limpo
quantas meias quartas tem
e a resposta:
Falaste no trigo limpo
mas não me falas no joio,
quatrocentas e oitenta
meias-quartas tem o moio
As “saias” eram cantadas a despique por homem e mulher ou então por duas
mulheres, e só tocadas por homens durante as festas do” tirar as
sortes”.
Na “tasca” onde só entravam homens,
contou-se primeiro a desgarrada, com uma música própria, e mais tarde
cantou-se o “fado”, de que deixamos uma “letra:
Ó fado que foste fado,
ó fado que já não és,
ó fado que estás virado
da cabeça para os pés
Ó cantador afamado
é agora ocasião
canta o fado à desgarrada,
daqui não levas gabão
Daqui não levas gabão
esta te vou a dizer,
se queres cantar o fado
inda tens que aprender
Tenho um saco de cantigas
inda mãos ma taleigada
para cantar toda a noite e
amanhã de madrugada
Havia naturalmente outras “modas”cantadas, como o Verdigaio e o Compadre
Zé, o Malverde e o Passo Largo (são alguns exemplos) e até os Dois
Passos eram por vezes cantados.
Quanto aos “instrumentos”, temos o
“reco-reco” de cana e o pífaro também de cana (mais tarde de pau de
sabugueiro) especialmente usado pelos pastores, mas não nos consta que
se bailasse ao toque do mesmo; temos o harmónio (de 1 e de 2 escalas),
acontecendo que o ritmo era algumas vezes marcado por um garfo (de
ferro) numa garrafa.
De referir no entanto que nos primeiros anos
do século, em 1904, os bailes da vila eram abrilhantados por uma tuna
com clarinete (em dó), viola e rebeca, flauta transversal, e bandolim. |