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Trata-se de uma “zona de transição”,que
estando geograficamente inserida no Ribatejo, etnograficamente tem mais
a ver com o Alto Alentejo. Eu atrevo-me até a chamar-lhe o ALENTEJO DA
CHARNECA Já o saudoso amigo Tomaz Ribas dizia, isto quanto ao Ribatejo,
que Abrantes e Montargil tinham algo de muito diferente.
E aqui quero lembrar, que geograficamente
MONTARGIL pertenceu à Estremadura, onde se encontrava em 1758, pertence
depois ao Ribatejo de onde sai para o Alentejo, para o concelho de Avis
em 1855 quando deixou de ser sede concelho. Em 1871 regressa ao Ribatejo
onde ainda hoje se encontra, quando a pedido da população e por ali
passar o comboio regressa també m ao concelho de Ponte de Sor .Quanto à
sua identidade, “ é a junção da alma alentejana com o folclore da
charneca ribatejana”(José Salvado Travassos—historiador e sociólogo) se
bem que sazonalmente, a presença dos algarvios (foram eles os primeiros
tiradores de cortiça que aqui demandaram), e dos “ratinhos” vindo das
Beiras em tempo de ceifas tenha também deixado as suas marcas. E talvez
não seja descabido citar a “Feira da Ponte” onde se encontravam com
gente de outras terras e pelo menos a moda das” saias” entravam na
cantoria.
Para estudo dos usos e costumas das nossas
gentes, das sua tradições, o mais longe que conseguimos chegar foi ao
início do século XX, mais concretamente aos anos 20 do mesmo, embora se
presuma que pouca diferença haveria mesmo em relação aos finais do
século XIX.
Em 1920, época sobre a qual nos vamos
centrar, MONTARGIL era uma terra que vivia essencialmente da agricultura
- o trigo seria a principal cultura, com o milho logo a seguir, mas
cultivando-se ainda outros cereais como a cevada, a aveia e o centeio. A
principal ocupação dos
trabalhadores era, pois, a agricultura, o campo,
embora na vila existissem os chamados oficiais, que se ocupavam de
ofícios/actividades como alfaiate, sapateiro, barbeiro, ferreiro e
ferrador. A oliveira era também uma produção com uma certa dimensão, não
só devido a um ou outro grande olival, como aos olivais ditos
familiares. E a prova é que na altura, existiam, tanto quanto sabemos,
oito lagares a funcionar.
MONTARGIL era então, como hoje uma terra marcadamente rural. No entanto,
poucas dessas citadas culturas se fazem hoje, e até o pêssego, que só
aqui chegou em 1965,cuja qualidade chegou a ser reconhecida
internacionalmente, tendo ainda estado em estudo uma zona demarcada,
está em vias de extinção. É certo que se faz ainda, mas pouco, pêssego
com muita qualidade.
Hoje faz-se um pouco de tomate, existe o
trabalho da cortiça, produz-se o tabaco, faz-se a apanha das pinhas e do
cogumelo, aparece a produção do mel e trabalha-se na construção civil.
Os jovens na sua maioria estudam. E existe o Turismo, que é irreversível
mas por si só insuficiente para a fixação das pessoas. Entretanto e com
a construção da Barragem, os locais que até aí não o faziam mesmo
perante as maiores adversidades, começam a migrar.
O ano de 2007 marca a apresentação de um
mega-projecto de Turismo para Montargil.
Entretanto, recuando no tempo, e para se ter uma ideia do pão que se
produzia (dos cereais que se semeavam), recordemos a existência de 2
“moinhos de vento”, na Guarita e na Biquinha, e de 7 “azenhas” ou
“moinhos de água”,na Ribeira (Luís Bento),em Vale de Margem e 4 no
Carvalhoso, dos quais 3 eram do Chico de Cavaleiros, do Joaquim
Manuelzinho e do Ti Júlio do Moinho; e ainda 1 outro nas Abertas
(António Gil). Aliás, as “Memórias Paroquiais” (1758) referem a
existência no rio Sor de seis engenhos de moinhos que continuamente
moem.
Mas voltemos aos inícios do século XX procurando as tradições, os usos e
costumes, explicando que folclore “é a expressão da cultura tradicional
relativa a comportamentos, usos, vivências e valores que qualquer grupo
social relevante culturalmente utilizou durante tempo suficiente, para
impor a sua marca, independentemente da sua origem e natureza”.Isto
significa que uma fotografia muito antiga com o trajo de senhora rica,
pode não ser folclore e apenas a imagem de uma única única pessoa que
usou aquele fato. É também o exemplo da arte taurina, pois sabe-se que
nos Leitões esteve instalada uma ganadaria e que ali trabalhavam alguns
campinos, mas nunca esta actividade caiu no domínio público, logo nada
tem a ver com a nossa identidade cultural.
Outubro/2000 |