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A mesa do
Zé
Lino Mendes (Portugal)
(Continuação...)
Será então que preconizamos um regresso ao passado? É evidente que não,
mas sugerimos, isso sim, que se aproveite todo o positivo das novas
tecnologias no aproveitamento do tradicional.
E como era então a sua alimentação, dos trabalhadores em especial,
quando deslocados à semana ou à quinzena?
Perguntámos a duas antigas camponesas, as irmãs gémeas Ramira e
Margarida, que de pés descalços calcorrearam esse caminhos.
Logo ao levantar, e antes de enregar no trabalho, comia-se um
bocado de pão com queijo ou com azeitonas, depois ao
almoço feijão-frade ou batatas de azeite e vinagre,
à merenda de novo pão com queijo ou com azeitonas, ao
jantar feijão com couve ou sopas de carne e à ceia
migas carvoeiras ou migas gatas. Claro que não seria
sempre assim, mas esta era uma ementa possível.
E como seria a semana, no que diz respeita a gastronomia numa casa
normal?
Falámos com a senhora Celestina Trindade, que bem conheceu as casas
pobres embora se pudesse considerar remediada, de lavrador, e que nos
disse que poderia ser assim, pelo menos, e se fosse convidada, assim
organizaria uma “semana gastronómica”:
Segunda-feira:
Almoço: Açorda com bacalhau
Jantar: Sopa miuda ( com feijão verde e batata)
Terça-feira:
Almoço: Sopa de cação
Jantar: Feijão com couve e cação frito ( de preferência no forno )
Quarta-feira:
Almoço: Migas gatas com bacalhau
Jantar: caldo verde com sardinha assada ( de preferência no forno )
Quinta-feira:
Almoço: Sopa da panela, temperada com toucinho e chouriço
Jantar: O mesmo do almoço.
Sexta-feira:
Almoço: Sopa de cebola
Jantar: Feijão de molho com batatas
Sábado:
Almoço: Sopa de carne
Jantar: O mesmo do almoço
Domingo:
Almoço: Canja de galinha
Jantar: Galinha corada
Lembrando a doçaria, especialmente o arroz doce e o bolo de
bacia, o bolo podre ( com mel e azeite ) e a torta
de amêndoa, o bolo enrolado e a tigelada, o pão de
ló e as broinhas, registemos também os licores de laranja,
de tangerina, de limão e de erva cidreira.
Entretanto, lembremos que “a alimentação à base de “plástico” como se
chama agora, sem frescos, sem fibras, sem frutas é maléfica para a saúde
em especial das gerações jovens.
Seria por isso importante “voltar aos hábitos mais são, a uma certa
frugalidade”. A pressa do mundo e os horários de trabalho das pessoas,
sabemos que é óbice a quem tem que cozinhar, mas há que fazer esforços
para que todos tenhamos uma cozinha saudável.
E se hoje aqui trazemos um pouco da “nossa cozinha” da cozinha que ia “à
mesa do Zé”, fazemo-lo por razões culturais e de qualidade de vida.
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