Dando
corpo a uma recomendação da UNESCO datada de 1989 e visando a
organização de uma base de dados em linha de acesso público prevista
no Decreto-Lei Nº 139/2009, de 15 de Junho, o Ministério da
Cultura, através do Instituto de Museus e da Conservação,
prepara a constituição de um grupo de trabalho que se
responsabilizará pelo “ levantamento universal e de nível
nacional do património cultural imaterial”.
A recomendação da UNESCO, e permitam-me este desabafo, já com 21
(vinte e um ) anos de existência, será desconhecida ou é
ignorada por quem tem responsabilidades,nomeadamente
educativas e culturais no País.E é hoje mais difícil quando em nome
da modernidade e dos novos tempos se cometem as maiores barbaridades
sobre a sabedoria dos povos.E já em 1989 a UNESCO
recomendava que devem os Estados” elaborar e introduzir programas
de ensino, tanto escolares como não escolares, o ensino e o estudo
da cultura tradicional e popular” e quanto à respectiva difusão
refere:”As população devem ser sensibilizadas para a cultura
tradicional, enquanto que elementos de identidade e cultural. Com o
fim de permitir uma tomada de consciência do valor da cultura
tradicional e popular e da necessidade de a preservar, é necessária
uma larga difusão dos elementos que constituem este património
cultural.Por ocasião desta difusão, importa, contudo, evitar
qualquer deformação afim de salvaguardar a integridade das
tradições”.
Entretanto, sendo de grande relevância, esta decisão governamental,
não basta, porque tão relevante e urgente são os tais programas
de ensino.
Entretanto, o que é Património Cultural Imaterial?
Segundo a Comissão Nacional da UNESCO mesmo manifesta-se nos
seguintes domínios:
a)
Tradições e expressões
orais, incluindo a língua como vector do património cultural
imaterial;
b)
Artes do espectáculo;
c)
Políticas sociais, rituais
e eventos festivos;
d)
Conhecimentos e práticas
relacionadas com a natureza;
e)
Aptidões ligadas ao
artesanato tradicional.
Entretanto, e não tendo dúvidas do cuidado que o “grupo de trabalho”
irá ter, nem por isso deixo de estar preocupado, pois a formação
académica que certamente os escolhidos para o efeito terão, pode não
ser suficiente para que nenhum gato passe por lebre.Para já, espero
que tanto a Fundação INATEL como a Federação do Folclore Português
não sejam ignorados no processo.
Escrevi isto já lá vai um ano!
Entretanto, na expectativa de que tudo se conjugasse para não se perder
mais tempo, e tendo consciência de que uns tantos grupos e entidades
ligadas ao Folclore teriam que ser chamados a colaborar, contactámos
inclusivamente ao Instituto dos Museus disponibilizando o que estivesse
ao nosso alcance. AGUARDÁMOS! E quando pensávamos tentar saber como
decorriam os trabalhos, eis que o jornal O PÚBLICO nos traz uma notícia
que muito nos entristece mas que na verdade não foi uma total surpresa.
Os ministros da
Cultura e das Finanças extinguiram no mês passado um grupo de trabalho
que haviam criado um ano antes, para fazer o levantamento dos bens
culturais imateriais, mas que apenas se reuniu uma vez e não desenvolveu
qualquer actividade de campo. Dois dos membros daquele grupo, que custou
ao Estado cerca de 209 mil euros, acusam o Instituto dos Museus e da
Conservação (IMC) de nunca ter proporcionado as condições indispensáveis
ao seu funcionamento. Um deles, o ex-director regional de Cultura de
Lisboa e Vale do Tejo, Luís Marques, responsabiliza pessoalmente o
secretário de Estado da Cultura, Elísio Sumavielle, pelo falhanço do
projecto e por ter “lesado o interesse público”.
Mas esta, custa-me dizê-lo, é infelizmente uma imagem que tem muito a
ver com o Portugal da actualidade. E no ar tenho que deixar uma questão:
- o que não fariam num ano com 209 mil euros, uns tantos etnógrafos sem
canudo e por isso ignorados, pese embora a excelência de uma vivência no
terreno que não tem licenciatura?
De Montargil, ao 15 de Março de 2011 |