|
CONVERSAS PARA UMA CULTURA DAS TRADIÇÕES ( 6 )
Lino Mendes (Portugal)
O Cante Alentejano
(Continuação)
A
mulher começa a aparecer no “cante”. A que se deve tal facto? A mulher
também faz parte da tradição?
Como atrás dissemos, as mulheres estiveram na génese do cante, lado a
lado com o s homens. Ombreavam no trabalho e aí, podiam cantar e
cantavam juntos. Mas a sequência, digamos que urbana do cante, privou,
durante décadas, as mulheres de assumirem o seu papel como interpretes
de uma “moda” que também era sua.
Dado o seu estatuto sócio-cultural, não frequentavam os lugares onde o
cante se prolongou depois de desaparecer dos campos, afastado pela
mecanização da agricultura. Por isso, só por isso, durante tanto tempo
se fez o silêncio nas gargantas femininas.
Mais tarde veio Abril e pouco a pouco foram-se abrindo os corações das
mulheres para o cante, à medida que se iam também abrindo os horizontes
dos seus direitos e as suas possibilidades de movimentação dentro do
tecido social.
Dizem-me que o cante nunca cantou a política. E quais eram os temas
cantados?
Antes de 74 o cante não podia abordar a temática política Algumas modas,
porque as houve, mais ousadas eram proibidas e os seus interpretes
castigados. Neste país, mesmo com fome não se podia gritar por pão.
Mesmo tolhidos, não podiam clamar por liberdade. Assim, as modas, feitas
e divulgadas nessa época, na sua generalidade, cantavam a vida, a
contemplação, a nostalgia, o amor, a saudade, o trabalho, tinham uma
função mais de expiação das mágoas do que de reivindicação de melhor
sorte.
Logo a seguir ao 25 de Abril, o cante e os corais foram notoriamente
instrumentalizados para “enfeitarem” manifestações e comícios e as
letras das modas, por essa via, sofreram, como não podia deixar de ser,
durante algum tempo as influencias directas do momento político
efervescente, reivindicativo e até quase conspirativo da altura, como
nas modas “ morreu Catarina, era comunista” e “ oh reforma agrária, eu
sonhei contigo…”.
Mas depressa os Grupos retomaram o cancioneiro popular, continuando a
cantar as modas que falavam da vida, da sua vida, do campo e da
nostalgia de tempos idos, como na moda, “lembra-me o tempo passado, tudo
se vai acabando, o boi puxando o arado e o almocreve cantando…”
São muitos os grupos de cante que existem na cintura de Lisboa .Quer
avaliar este fenómeno?
Com a diáspora, embora tardia, dos alentejanos para fora da sua terra,
levaram consigo a crença pelo cante e a falta que do mesmo também
sentiam. O cante era para eles uma espécie de colo onde se embalavam com
as suas contrariedades para amenizarem o viver. Sem ele, mesmo longe,
não podiam viver. Ainda por cima, se lhes acrescentou a saudade,
fazedora de angústias.
Daí que por toda a Grande Lisboa, onde poisaram, deram seguimento ao seu
sentir rural, e cantaram. Mas só cantando juntos surtia o efeito
desejado. E assim nasceram, vários, muitos grupos corais, prenhes de
ruralismo, em zonas eminentemente industriais.
Qual a influência, positiva ou negativa, do 25 de Abril no “cante”?
Julgamos que o 25 de Abril, libertando o povo de amarras e opressões, só
podia ter influencia positiva em toda o seu existir. E o cante é uma
expressão dessa mesma existência.
Todavia, com as influências da intromissão abusiva e não criteriosa da
política activa nos corais, as coisas tremeram. |
|