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CONVERSAS PARA UMA CULTURA DAS TRADIÇÕES ( 6 )
Lino Mendes (Portugal)
O Cante Alentejano
(Continuação)
E
a partir de agora, passamos a conversar com Colaço
Ribeiro
Até onde remontam as origens de “cante”?
Como sabe, existem três vias para dar resposta a essa dúvida que nos
surge sempre que queremos encontrar o momento, o local e o modo do
surgimento do cante alentejano. Estudiosos da matéria apontam a génese
do cante para a pratica coralista gregoriana, encontrando razões, pontos
de convergência e similitudes que para eles são irrefutáveis. Outros,
igualmente empenhados no estudo desta matéria, avançam como resposta a
herança histórico-cultural legada pela presença árabe no nosso país e a
sua abalada mais tardia do sul do país. Buscando e encontrando
semelhanças, na forma de expressão vocal nossa e no cante mourisco….
Mas, outros há ainda que respondendo à mesma questão, negam ambas as
explicações anteriores e apontam como fundamento da origem do cante
alentejano a fixação pelas nossas gentes e a sua interpretação
sistemática, de uma forma de polifonia onde se concentram e se
exteriorizam os valores mais profundos da alma deste povo.
E
quais as suas estruturas?
No seu início, o cante tinha como palco o campo. Foi uma necessidade
sentida pelos trabalhadores para lhes aconchegar o espírito e lhes
aliviar o corpo. Nasceu nas idas e nas vindas do trabalho e cultivou-se
na dureza da azáfama.
O
cante nasceu em função do trabalho, burilou-se na sua execução, passou a
ser instrumento do mesmo. Depois prolongou-se caminhos fora e entrou nas
vilas e nas aldeias. Continuou-se nas tabernas, apareceu nas festas. Mas
a sua função principal não era animar os folguedos. Nasceu da
necessidade dos trabalhadores inventarem um bálsamo para as suas dores
tantas. E o cante era isso, um grito que aliviava, um suspiro que
tornava menos amarga a dureza da vida.
O
cante colectivo, o som projectado por tanta garganta em uníssono, dava
uma sensação de força maior, que se acrescentava à outra que a fraqueza
ia vencendo, quer debaixo do sol escaldante, quer sob uma qualquer
intempérie para a qual não havia abrigo de jeito.
No trabalho esforçado para além dos limites das posses individuais,
valia assim a presença do coro colectivo que emprestava ânimo e ajudava,
no seu cadenciado, a vencer mares de searas. Tudo se formava e tudo se
dissolvia na ida e com o regresso das labutas, onde homens, mulheres e
crianças marchavam juntos durante quilómetros. Era essa a escola, era
essa a vida do cante.
Só mais tarde, a partir da década de trinta, dentro das vilas, é que os
Grupos corais começaram a ter alguma consistência organizativa. Em torno
da figura de um bom cantador, começaram a esboçar-se os Grupos Corais
que temos hoje. Com disciplina de posições, com organização e ensaios.
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