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Na escuridão da noite ouvem-se vozes em coro, cantando aqui e além
em grupos, as mesmas cantigas que de geração em geração se fizeram
ouvir até aos nossos dias numa comunhão de festa e de partilha em louvor
do Ano Novo.
Levante-se daí Senhora
Do seu banco de cortiça
Venha-nos dar as janeiras
Ou de carne ou de chouriça.
As casas fartas; de porcos na salgadeira, papas na taleiga, fartura
de sequeiro e dispensa bem farta, raramente diziam que não aos
cantadores. Aos garotitos umas maçãzitas, nozes, figos secos, avelãs,
castanhas, tudo servindo para a divisão final.
Outro rancho se aproxima. Cantadeiras de vozes bem timbradas, que a
viola segue e a guitarra acompanha os seus trinados.
Viva lá o Senhor António
Raminho de bem querer
Traga lá a chave da adega
Venha-nos dar de beber.
A espera não era muita, porque a porta de imediato se abria.
Então as raparigas com os xailes pela cabeça, abafavam o riso
para não serem reconhecidas. Os homens, esses não queriam saber de mistérios,
aceitavam a pinga de vinho que de tão boa vontade lhes era oferecido.
As Janeiras que nos deram
Deus será o pagador
Queira Deus que para o ano
Nos faça o mesmo favor.
Quantos deliciosos momentos passageiros, quantas fugitivas emoções
que desejamos concentrar em nós próprios, imprimir bem fundo na memória
para que a tradição não desapareça e não se confunda com os anos que
nos vão trazendo novos sentimentos, novas dores e novas alegrias
O tempo implacável tudo nos rouba, tudo afunda e dilui em coisas
sem sentido, de que às vezes as melhores horas, são aquelas que menos
podemos evocar com precisão, porque de muito alto que subiram se
desfizeram.
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