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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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Pub Festas e Tempos  
  Festas Populares (3)

João Vasconcelos (*)

(Continuação...)
Celebrar a tradição

Para finalizar, quero chamar a atenção para uma outra modalidade de relação entre a festa e o tempo que me parece ser particularmente característica das "festividades tradicionais" contemporâneas. Muitas destas festas são tradicionais em dois sentidos. São-no, primeiro, na medida em que têm histórias longas, antigas, histórias institucionais e também hábitos de festejar que atravessam o tempo sem assomarem necessariamente à consciência das gerações que vão festejando.

Mas, além disso, muitas destas festas são tradicionais de outra maneira, na medida em que fazem de certos elementos do passado local e do seu próprio passado objecto de evocação explícita e de celebração. Os festivais de folclore e os cortejos históricos e etnográficos que nas últimas décadas têm surgido nos programas de tantas festas e romarias constituem as instâncias mais recorrentes desse processo de "tradicionalização". embora não sejam as únicas. Uma imagem extrema que condensa esse processo é-nos oferecida no final do cortejo etnográfico da romaria da Senhora da Agonia. Perante uma assistência de milhares de pessoas - a maioria "populares", mas também elementos das elites locais, representantes dos municípios do distrito e membros do governo da nação, estes instalados numa tribuna e com ingresso gratuito - o cortejo encerra com a passagem de um carro alegórico que figura... a romaria da Senhora da Agonia.

Em Portugal. este processo de "tradicionalização" - com antecedentes na visão "monumentalizadora" do povo, estreitamente ligada à construção da identidade nacional, que marcou muita da produção artística e intelectual do país no século XIX - parece ganhar força e implantação no nosso século por volta dos anos trinta (em larga medida estimulado pela visão glorificadora e selectiva do passado nacional e pela visão primitivista da tradição camponesa que dominaram a acção dos serviços de propaganda do Estado Novo, e também pelo desenvolvimento das indústrias do turismo), parece decair em seguida nas décadas de sessenta e setenta (com o esvaziamento dos campos, com o longo luto da guerra colonial e, depois, com o antitradicionalismo do período pós-revolucionário), e parece recuperar fôlego nos anos oitenta e noventa (recuperação esta na qual terão papel importante o enriquecimento material e a escolarização dos filhos do campo - quer os que partiram, quer os que ficaram - a revitalização dos poderes autárquicos e das reivindicações identitárias locais. e, uma vez mais, a promoção turística). Sublinhe-se que nem todos os aspectos da tradição são "tradicionalizados". São-no essencialmente aqueles que dão uma visão positiva do passado.
 

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(Excertos de "Festas e tempos". Texto do catálogo "O tempo da festa", Porto, Centro Regional de Artes Tradicionais, 1997)
(*) Antropólogo. Investigador no Instituto de Ciências Sociais


   

 

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