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(Continuação...)
Celebrar a tradição
Para finalizar, quero chamar a atenção para uma outra modalidade de relação
entre a festa e o tempo que me parece ser particularmente característica das
"festividades tradicionais" contemporâneas. Muitas destas festas são
tradicionais em dois sentidos. São-no, primeiro, na medida em que têm
histórias longas, antigas, histórias institucionais e também hábitos de
festejar que atravessam o tempo sem assomarem necessariamente à consciência
das gerações que vão festejando. |
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Mas, além disso, muitas destas festas são
tradicionais de outra maneira, na medida em que fazem de certos elementos do
passado local e do seu próprio passado objecto de evocação explícita e de
celebração. Os festivais de folclore e
os cortejos históricos e etnográficos que nas últimas décadas têm surgido
nos programas de tantas festas e romarias constituem
as instâncias mais recorrentes desse processo de "tradicionalização". embora
não sejam as únicas. Uma imagem extrema que condensa esse processo é-nos
oferecida no final do cortejo etnográfico da romaria da Senhora da Agonia.
Perante uma assistência de milhares de pessoas - a maioria "populares", mas
também elementos das elites locais, representantes dos municípios do
distrito e membros do governo da nação, estes instalados numa tribuna e com
ingresso gratuito - o cortejo encerra com a passagem de um carro alegórico
que figura... a romaria da Senhora da Agonia.
Em Portugal. este processo de "tradicionalização" - com antecedentes na
visão "monumentalizadora" do povo, estreitamente ligada à construção da
identidade nacional, que marcou muita da produção artística e intelectual do
país no século XIX - parece ganhar força e implantação no nosso século por
volta dos anos trinta (em larga medida estimulado pela visão glorificadora e
selectiva do passado nacional e pela visão primitivista da tradição
camponesa que dominaram a acção dos serviços de propaganda do Estado Novo, e
também pelo desenvolvimento das indústrias do turismo), parece decair em
seguida nas décadas de sessenta e setenta (com o esvaziamento dos campos,
com o longo luto da guerra colonial e, depois, com o antitradicionalismo do
período pós-revolucionário), e parece recuperar fôlego nos anos oitenta e
noventa (recuperação esta na qual terão papel importante o enriquecimento
material e a escolarização dos filhos do campo - quer os que partiram, quer
os que ficaram - a revitalização dos poderes autárquicos e das
reivindicações identitárias locais. e, uma vez mais, a promoção turística).
Sublinhe-se que nem todos os aspectos da tradição são "tradicionalizados".
São-no essencialmente aqueles que dão uma visão positiva do passado.
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(Excertos de "Festas e tempos". Texto do catálogo "O tempo da festa",
Porto, Centro Regional de Artes Tradicionais, 1997)
(*) Antropólogo. Investigador no Instituto de Ciências Sociais |