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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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Pub Festas e Tempos  
  Festas Populares (3)

João Vasconcelos (*)

(Continuação...)
Quebrar o quotidiano

Uma das maneiras frequentes de pensar e de viver a festa consiste em fazer dela ocasião de ruptura do tempo comum. Um dos instrumentos mais apropriados para instaurar uma ruptura é a inversão. A festa, ou pelo menos alguns dos seus elementos, configurará então um episódico mundo às avessas. Na área dos estudos sociais, e particularmente nos campos disciplinares da antropologia e da história, esta concepção da festa tem andado a par da escolha das festividades de tipo carnavalesco como festas exemplares.

Concebida como inversão simbólica, a festa passa a ser objecto de teses variadas. Há por exemplo as que vêem nessa inversão um garante ou uma válvula de escape da falsa consciência que deve pautar a vida quotidiana. Há as que sublinham o potencial de contestação que em certas circunstâncias históricas pode transitar do nível simbólico para a rebelião efectiva. Há as que articuIam a presença de elementos de inversão com o enquadramento da festa num tempo circular e encontram assim na inversão um dispositivo cultural de regeneração cíclica dá ordem cósmica e social.

Convém sublinhar que a concepção da festa como ruptura do quotidiano não é só uma metáfora erudita ou escolar. Ela existe também nos discursos e nas práticas das pessoas que festejam. Ao nível dos discursos, expressões comuns como "festa é festa" expressam a consciência da singularidade do tempo festivo. Ao nível das práticas, parece central a inversão que os excessos episódicos da festa operam sobre a contenção do dia a dia. O carácter excessivo da festa realiza-se sobretudo ao nível do consumo e ao nível do estímulo dos sentidos e da sensualidade, dois planos onde impera a vigilância da moral idade que enquadra a vida quotidiana, reforçada por argumentos e interditos provenientes do campo eclesiástico e da autoridade estatal. Encontramos excesso nos manjares cerimoniais, marcados pela quantidade de alimentos e sobretudo pela abundância daquilo que habitualmente se come (ou comia?) com moderação os doces, variados, e também a carne - os "bifes santos" que se comem nalgumas romarias, o cabrito ou o borrego assado típicos das merendas pascais, os enchidos que enchem os farnéis dos romeiros, outrora os bois que muitas câmaras do país mandavam assar e ofereciam ao povo por altura do Pentecostes. Encontramos excesso no consumo de bebidas alcoólicas. Encontramo-lo na interacção entre as pessoas, que na festa admite graus de proximidade corporal e de intensidade geralmente reprimidos, e que tanto podem manifestar-se nas danças e nos namoros no monte à noite ao luar como nas brigas entre rapazes ou entre aldeias (estas últimas praticamente desaparecidas, entre outras razões, por falta de rapazes). Encontramos a excitação dos sentidos na música, no canto e na dança, nas decorações das ruas e dos andores, nos altares barrocos, no fogo de vista, na iluminação nocturna dita à moda do Minho, nos cheiros e no calor dos alimentos, na experiência física da multidão, em práticas gratulatórias que realizam no corpo à ideia de sacrifício. Encontramos excesso nos gastos monetários. A festa é território da despesa, onde a oferta e a procura de serviços e bens cujo valor de uso é eminentemente lúdico e estético (diversões de feira, sorteios e jogos de azar, brinquedos, bibelots e outros artigos decorativos) igualam ou excedem as de serviços e bens de utilidade mais imediata. O leilão, elemento festivo recorrente, é a expressão mais clara do gasto sumptuário que marca o tempo da festa.

Foram alguns destes excessos estéticos e inversões éticas incrustados na festa que o Estado e a Igreja, ora de mãos dadas, ora cada um por seu caminho, procuraram combater e disciplinar. Fizeram-no em diversos momentos históricos, mas de forma continuada sobretudo a partir do começo do século XIX e, no domínio das romarias, de maneira muito violenta e eficaz no segundo quartel do século XX.
 

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(Excertos de "Festas e tempos". Texto do catálogo "O tempo da festa", Porto, Centro Regional de Artes Tradicionais, 1997)
(*) Antropólogo. Investigador no Instituto de Ciências Sociais

   

 

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