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(Continuação...)
Quebrar o quotidiano
Uma das maneiras frequentes de pensar e de viver a festa consiste em fazer
dela ocasião de ruptura do tempo comum. Um dos instrumentos mais apropriados
para instaurar uma ruptura é a inversão. A festa, ou pelo menos alguns dos
seus elementos, configurará então um episódico mundo às avessas. Na área dos
estudos sociais, e particularmente nos campos disciplinares da antropologia
e da história, esta concepção da festa tem andado a par da escolha das
festividades de tipo carnavalesco como festas exemplares.
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Concebida como
inversão simbólica, a festa passa a ser objecto de teses variadas. Há por
exemplo as que vêem nessa inversão um garante ou uma válvula de escape da
falsa consciência que deve pautar a vida quotidiana. Há as que sublinham o
potencial de contestação que em certas circunstâncias históricas pode
transitar do nível simbólico para a rebelião efectiva. Há as que articuIam a
presença de elementos de inversão com o enquadramento da festa num tempo
circular e encontram assim na inversão um dispositivo cultural de
regeneração cíclica dá ordem cósmica e social.
Convém sublinhar que a concepção da festa como ruptura do quotidiano não é
só uma metáfora erudita ou escolar. Ela existe também nos discursos e nas
práticas das pessoas que festejam. Ao nível dos discursos, expressões comuns
como "festa é festa" expressam a consciência da singularidade do tempo
festivo. Ao nível das práticas, parece central a inversão que os excessos
episódicos da festa operam sobre a contenção do dia a dia. O carácter
excessivo da festa realiza-se sobretudo ao nível do consumo e ao nível do
estímulo dos sentidos e da sensualidade, dois planos onde impera a
vigilância da moral idade que enquadra a vida quotidiana, reforçada por
argumentos e interditos provenientes do campo eclesiástico e da autoridade
estatal. Encontramos excesso nos manjares cerimoniais, marcados pela
quantidade de alimentos e sobretudo pela abundância daquilo que
habitualmente se come (ou comia?) com moderação os doces, variados, e também
a carne - os "bifes santos" que se comem nalgumas
romarias, o cabrito ou o
borrego assado típicos das merendas pascais, os enchidos que enchem os
farnéis dos romeiros, outrora os bois que muitas câmaras do país mandavam
assar e ofereciam ao povo por altura do Pentecostes. Encontramos excesso no
consumo de bebidas alcoólicas. Encontramo-lo na interacção entre as pessoas,
que na festa admite graus de proximidade corporal e de intensidade
geralmente reprimidos, e que tanto podem manifestar-se nas danças e nos
namoros no monte à noite ao luar como nas brigas entre rapazes ou entre
aldeias (estas últimas praticamente desaparecidas, entre outras razões, por
falta de rapazes). Encontramos a excitação dos sentidos na música, no canto
e na dança, nas decorações das ruas e dos andores, nos altares barrocos, no
fogo de vista, na iluminação nocturna dita à moda do
Minho, nos cheiros e no
calor dos alimentos, na experiência física da multidão, em práticas
gratulatórias que realizam no corpo à ideia de sacrifício. Encontramos
excesso nos gastos monetários. A festa é território da despesa, onde a
oferta e a procura de serviços e bens cujo valor de uso é eminentemente
lúdico e estético (diversões de feira, sorteios e jogos de azar, brinquedos,
bibelots e outros artigos decorativos) igualam ou excedem as de serviços e
bens de utilidade mais imediata. O leilão, elemento festivo recorrente, é a
expressão mais clara do gasto sumptuário que marca o tempo da festa.
Foram alguns destes excessos estéticos e inversões éticas incrustados na
festa que o Estado e a Igreja, ora de mãos dadas, ora cada um por seu
caminho, procuraram combater e disciplinar. Fizeram-no em diversos momentos
históricos, mas de forma continuada sobretudo a partir do começo do século
XIX e, no domínio das romarias, de maneira muito violenta e eficaz no
segundo quartel do século XX.
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