|
Festas e Tempos
FESTAS POPULARES (2)
João Vasconcelos (*)
(Continuação...)
Festas de Verão
É preciso sondar o que é que acontece às festas quando a vivência agrícola
que Ihes dava certos sentidos e as envolvia na sua temporal idade se torna
marginal. Foi isso que aconteceu em Portugal com particular força nos
últimos 40 anos, período durante o qual a percentagem da população activa
empregada no sector primário decaiu velozmente dos 50 para os 10 por cento e
o mundo rural sofreu intensa sangria demográfica.
O nosso tempo está hoje muito afastado da ciclicidade agrícola. O que não
quer dizer que ele se tenha separado da vivência da
ciclicidade em geral. O
Verão, além de ocorrência climatérica regular, continua sendo um tempo
carregado de sentido próprio, e é nos elementos contemporâneos desse sentido
que poderemos encontrar outros novos sentidos das festas estivais. Para a
maioria dos portugueses, o tempo estival já não é o tempo extenuante e
gratificante das colheitas. É, embora não para toda a gente, tempo de
férias, é tempo de regresso à terra, é tempo de consumir os produtos e os
serviços das indústrias do lazer. O estímulo a este tipo de consumo não
nasce já da novidade das colheitas, mas é instigado pela publicidade e, para
os assalariados, pela instituição providencial do subsídio de férias.
É na adaptabilidade das festas que reside o segredo da sua permanência As
festas que mais decaíram ao longo deste século foram as festividades
vincadamente agrícolas. como os clamores primaveris com que inúmeras
povoações rurais rogavam protecção para os campos, hoje em dia residuais, ou
os elementos festivos que pautavam trabalhos colectivos quase abandonados,
como as esfolhadas. Mas mesmo neste tipo de festas há possibilidade de
releitura e adaptação. Foi, por exemplo, o que aconteceu em anos recentes na
romaria de gado em honra de São Mamede de Janas, nos arredores de Sintra,
que, ao mesmo tempo que viu a sua clientela camponesa diminuir, passou a
contar com a presença de muitos romeiros burgueses que têm casas de férias
na zona e que começaram a frequentar a festa levando à bênção do gado os
seus animais de estimação.
|
|