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Quando hoje ouvem falar em "festas populares", certos portugueses
urbanizados terão em mente festividades como a romaria da
Senhora da Agonia
ou as festas de Santo António em Lisboa. A sua "cultura popular" é a das
romarias, do
artesanato e do
romanceiro. A outra, a da
telenovela, do futebol, da discoteca, do megaconcerto, do centro comercial e
do hipermercado, é, consoante os casos, "cultura de massas" ou "cultura
pop", ou então não merece sequer o rótulo de "cultura ". |
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Muita gente não se habituou ainda a ver "o povo" fora das aldeias. Mas é aí
que ele está, é aí que estamos em força desde meados do século XX. Encontro,
porém, uma desculpa parcial para essa cegueira. É que, se é certo que o camponês se urbanizou,
também é certo que não abandonou os campos de vez. Visita a terra com os
filhos no mês de Agosto, ou pelo menos no dia da festa do padroeiro ou da
romaria local. Torna a visitá-Ia no Natal, ou na altura da matança, ou no
dia do compasso. Vem ajudar e vigiar os parentes nas vindimas, na debulha e
na partilha da herança. Vem casar a filha e baptizar o neto. Paga as obras
necessárias para manter em pé ou melhorar a casa de família, ou então
constrói casa nova para as férias, para a reforma ou para os filhos. Visita
as campas dos familiares no dia de
Todos os Santos. Quando pode, faz doações
mais ou menos avultadas para o restauro do relógio electrónico da igreja,
para a compra de um sintetizador, para o alcatroamento dum caminho, para a
festa da aldeia - à semelhança do que fazia há cem anos o fidalgo residente
ou absentista. A modernização tardia do país e este vaivém cultural dos
filhos do campo estão em larga medida na raiz quer da vitalidade das festas
locais e das romarias, quer do carácter "multicultural" dos programas dos
festejos. É isso também que dá uma certa substância às visões urbanas da
rusticidade
As festas populares contemporâneas (populares no sentido vago em que
geralmente não são as festas que a maioria das pessoas das camadas sociais
mais elevadas frequenta) não pertencem já à civilização camponesa, mas a um
universo cultural que, para usar a expressão de Augusto Santos Silva, habita
"tempos cruzados". Esse universo, podendo dizer-se híbrido de um certo ponto
de vista, só pode ser considerado pouco genuíno ou incaracterístico por
excesso de nostalgia. E a hibridação não é também a destruição da "tradição"
pela "modernidade". Tomemos um exemplo: ao mesmo tempo que a música de
discoteca foi penetrando nas romarias através dos altifalantes das tendas de
comércio e das pistas de carros de choque, muitas discotecas de província
foram ocupando os espaços de eleição dos velhos santuários - as margens dos
centros urbanos, os pinhais despovoados, as zonas de passagem, as terras de
ninguém.
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