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Comentário ao
artigo de opinião do Dr. Humberto Nelson Ferrão
António Messias A Silva
(Grupo Etnográfico
da Pampilhosa)
Estou no seu essencial de acordo com a opinião expressa. A esmagadora
maioria dos agrupamentos de folclore esgota-se no seu festival anual,
nas permutas e exibições em palco.
No entanto
grupos há com mais actividades. – Grupos que defendam, preservam e
divulgam outros tipos de património (móvel e imóvel); - grupos que
possuindo relevantes acervos patrimoniais, já constituíram ou poderão
vir a constituir importantes núcleos museológicos; grupos que
adquiriram significativo imóvel patrimonial e estão a recuperá-lo;
grupos que têm publicações, divulgando os resultados das suas
recolhas e investigação; grupos que através de encenações teatrais
vão variando e apresentando outras formas de cultura tradicional.
Esta destrinça entre os grupos está por fazer e penso que
nunca se fará. Não há interesse.
Quanto às entidades oficiais e aos apoios: não nos
devemos esquecer que o conceito de cultura popular surgiu na sociedade,
já estratificada em camadas sociais e culturais, quando uma elite
cultural se debruçou e reflectiu sobre o modo de ser e estar da “ralé”,
do estrato inferior, analfabeto e “ignorante”. Hoje, quem detém o
poder é precisamente a mesma elite cultural, ou pretensamente culta,
para quem se mantém precisamente o mesmo conceito, no ser e na forma.
Portanto, não admira o seu comportamento. Por exemplo, uma comparação
apenas. Peguemos numa das “artes efémeras”, assim classificadas
pelo Ministério da Cultura, e tanto subsidiadas. “Efémeras”
porque, apesar de inovadoras, são pouco duradoiras? Mas, vejamos o
teatro que recorre aos textos de escritores eruditos (quantas vezes com
ideais e mensagens tão duvidosas), representando-os. O folclore recorre
aos textos dessa gloriosa memória colectiva e oral de um povo, também
representando-os. Onde está tanta diferença?
Será que o Ministério da Cultura queira transformar a
cultura tradicional numa cultura inovadora e de mudança?
A cultura tradicional opõe-se à essa inovação e a essa
mudança, não merecendo credibilidade?
Entretanto, concordo perfeitamente que a assistência das
manifestações da cultura tradicional está a desaparecer, sem ser
renovada. Os grupos, cada vez mais, têm que contribuir para o
desenvolvimento local, indo ao encontro dos anseios e desejos das suas
gentes, não impondo aquilo que os dirigentes do grupo pensam e querem.
Há que conquistar novos públicos e cada vez mais jovens.
Será possível?
Enfim, tanto, tanto, para dizer.
Penso que este tema merecia um debate profundo.
As minhas desculpas por este desabafo.
Cordiais saudações. Os melhores cumprimentos.
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