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Em todas as
religiões é fácil encontrar vestígios dos velhos cultos astrais,
adaptados a outras intenções, certo, mas cujo disfarce a hierologia(*), não
raro, explica e desvenda. A
adoração dos corpos celestes foi universal: originou crenças, formulou
ideias e estabeleceu práticas tão fortemente enraizadas depois que, ao
diante, penetraram nas várias doutrinas religiosas, ou aceites como
necessárias, ou á força, como irresistíveis. Compreende-se o domínio da astrologia nas mitologias de que quase todos os povos,
pensando, que à anuviada imaginação primitiva, os fenómenos celestes
cumpriam-se ou surgiam como manifestações de um poder
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misterioso e oculto. Lento e lento a curiosidade apreensiva e tímida foi
verificando a concordância de certos movimentos planetários com épocas
várias do tempo sob cuja influência se praticavam as
sementeiras ou realizavam as colheitas. Os meses e as estações,
relacionados com a marcha e aspectos dos dois astros mais observados,
acusavam, com máxima acentuação, a força ignorada e dominadora.
E com
o tempo, na obscura mentalidade primitiva, os acontecimentos siderais -
receosa e ingénua que nos vem denunciando, através da história e
das religiões, prognósticos, presságios e outros despojos legados pelos
antigos cultos.
A solenidade do Natal, de facto não é referido nas notícias mais
remotas que, nos seus primeiros escritos, nos legou o cristianismo;
provou-se que não foram os apóstolos que a introduziram; as investigações
relativas ao dia parecido ao da natividade do Salvador não resolveram uma
data justas. De sorte que os
chefes da igreja do Ocidente, em face da grande funda solenidade anual
celebrada em Roma e chamada a festa do nascimento do sol invencível ,
decidiram fazer coincidir com
o nascimento de Cristo.
Esta inteligente deliberação da igreja no século IV, modificou
pouco a intenção primitiva da homenagem ao renascimento do astro, mas não
expurgou inteiramente, dos costumes, certos usos e superstições que mais
ou menos sobreviveram até hoje.
É de ver, por exemplo, os festins que quase toda a humanidade
realiza por este tempo. Há iguarias especiais características: os
mexidos ou formigos, as filhoses ou coscoréis, o vinho quente com mel, as
rabanadas, certas broas e bolos. Estas
comidas, como averiguaram os mitologistas, são os vestígios
dos antigos sacrifícios em homenagem aos deuses; a princípio ,
mesmo os bolos tinham a forma dos animais abatidos no momento em que se
desejava tornar propícias as divindades. O intuito cultural está
perdido; mas vagamente, gradativamente, se alcançou explicar a celebração
da festa com jantares ou ceias fartas. A matança do porco em que
muitas terras se efectua só em Dezembro, - como acontecia em Lorvão,
agora já se não usa, mata-se em qualquer altura, - a cabeça de Javali,
era obrigatória em dia de Natal, nas
mesas alemãs, o lugar do mel, sagrado em numerosas mitologias, na confecção
de certos doces, Vários outros elementos, enfim, são sobrevivências a
considerar. E, de resto, costumes houve já extintos, dos quais
entretanto, nos ficou a indicação histórica.
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