O CICLO NATALÍCIO
Sérgio Fonseca
Dezembro
de 2003
Em todas as
religiões é fácil encontrar vestígios dos velhos cultos astrais,
adaptados a outras intenções, certo, mas cujo disfarce a hierologia,não
raro, explica e desvenda. A
adoração dos corpos celestes foi universal: originou crenças, formulou
ideias e estabeleceu práticas tão fortemente enraizadas depois que, ao
diante, penetraram nas várias doutrinas religiosas, ou aceites como
necessárias, ou á força, como irresistíveis. Compreende-se o domínio da astrologia nas mitologias de que quase todos os povos,
pensando, que à anuviada imaginação primitiva, os fenómenos celestes
cumpriam-se ou surgiam como manifestações de um poder misterioso e
oculto. Lento e lento a curiosidade apreensiva e tímida foi verificando a
concordância de certos movimentos planetários com épocas várias do
tempo sob cuja influência se praticavam as
sementeiras ou realizavam as colheitas. Os meses e as estações,
relacionados com a marcha e aspectos dos dois astros mais observados,
acusavam, com máxima acentuação, a força ignorada e dominadora. E com
o tempo, na obscura mentalidade primitiva, os acontecimentos siderais -
receosa e ingénua que nos vem denunciando, através da história e
das religiões, prognósticos, presságios e outros despojos legados pelos
antigos cultos.
A solenidade do Natal, de facto não é referido nas notícias mais
remotas que, nos seus primeiros escritos, nos legou o cristianismo;
provou-se que não foram os apóstolos que a introduziram; as investigações
relativas ao dia parecido ao da natividade do Salvador não resolveram uma
data justas. De sorte que os
chefes da igreja do Ocidente, em face da grande funda solenidade anual
celebrada em Roma e chamada a festa do nascimento do sol invencível ,
decidiram fazer coincidir com
o nascimento de Cristo.
Esta inteligente deliberação da igreja no século IV, modificou
pouco a intenção primitiva da homenagem ao renascimento do astro, mas não
expurgou inteiramente, dos costumes, certos usos e superstições que mais
ou menos sobreviveram até hoje.
É de ver, por exemplo, os festins que quase toda a humanidade
realiza por este tempo. Há iguarias especiais características: os
mexidos ou formigos, as filhoses ou coscoréis, o vinho quente com mel, as
rabanadas, certas broas e bolos. Estas
comidas, como averiguaram os mitologistas, são os vestígios
dos antigos sacrifícios em homenagem aos deuses; a princípio ,
mesmo os bolos tinham a forma dos animais abatidos no momento em que se
desejava tornar propícias as divindades. O intuito cultural está
perdido; mas vagamente, gradativamente, se alcançou explicar a celebração
da festa com jantares ou ceias fartas. A matança do porco em que
muitas terras se efectua só em Dezembro, - como acontecia em Lorvão,
agora já se não usa, mata-se em qualquer altura, - a cabeça de Javali,
era obrigatória em dia de Natal, nas
mesas alemãs, o lugar do mel, sagrado em numerosas mitologias, na confecção
de certos doces, Vários outros elementos, enfim, são sobrevivências a
considerar. E, de resto, costumes houve já extintos, dos quais
entretanto, nos ficou a indicação histórica.
Quase todo o mês era ocupado, nos tempos idos, em merendas e
jantares. Nos sete dias que precediam o do Natal, havia nas colegiadas e
mosteiros, as pitanças, servindo-se aos convidados, vinhos e frutas
secas; mas, ano a ano, foi decaindo o costume até findar
de vez, pois segundo um cronista, “se juntava muita gente de
desvariadas maneiras, entre
as quais eram pessoas, que depois de beberem diziam e faziam muitas
enormidades e alentavam arruados e contendas.
Depois da festa prosseguiam os beberetes
e comida, pretextando-as certas
funções de Igreja, terminadas sempre pela reunião dos membros das
confrarias em repastos lautos. Até que, pelos Reis, cessavam as festas,
as consoadas, as ofertas, estas ultimas ainda vestígios persistentes das strenas
dos romanos, que o cristianismo tanto combateu sem conseguir impedi-las .
Na véspera do Natal, armam-se, nas casas e nas igrejas, as alpinas
ou presépios, representando o nascimento de Jesus, sob o telhado miserável
e com toda uma decoração pastoril, era diante deles que se apresentavam
outrora colóquios, entremeses,
vilancicos
ou se entoavam as loas de Natal.
Em Lorvão as pessoas, no dia de Natal e durante todo o ciclo até
aos Reis, levam para a missa as fogaças
( tabuleiros ornamentados com doces natalícios carne de porco, morcela e
linguíça, (da matança do porco) e ainda da produção das colheitas do
verão anterior, feijão, milho, vinho e outros produtos
fruto da terra e do trabalho do homem eram assim ofertados ao
Menino Jesus no presépio.
O fim da celebração termina com o beijar do Menino. O Senhor
Padre debaixo do pálio bordado a ouro e prata, dá a beijar o menino a
toda a assembleia, para se comemorar
mais uma festa do seu
nascimento.
No lado esquerdo do
altar – mor fica um pequeno
grupo de músicos, que vão tocando melodias desta quadra,
profanadas pelo tempo e pela história mas…que a tradição não
apaga.
No final de todo o ritual, as fogaças e todas as ofertas, são
leiloadas por alguém com voz forte e pujante, no adro da Igreja, e o
dinheiro reverte para as obras do culto (igreja).
Este VI Encontro de Cantares do Ciclo Natalício, vem
há 5 anos a esta parte, tentar reconstituir e trazer à Igreja do
Mosteiro de Lorvão, um ritual de adoração ao Menino junto do presépio,
que em tempos de antanho se realizaram pelos nossos antepassados, ritual
com mais de 3 Séculos de História.
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