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(Continuação...)
"Segundo a mitologia, Io, filha do Rei Inaco e de Ismene - por Formosa e
meiga - veio a ser requestada por Júpiter. Juno, irmã e mulher deste
apaixonado pai dos deuses, que lia no coração e pensamentos do sublime
adúltero e velava de contínuo sobre tudo quanto ele meditava e fazia,
resolvera perseguir e desfazer-se da comborça que lhe trazia a cabeça
numa dobadoura.
Ele, para salvar da vigilância uxória a sua apaixonada, metamorfoseou-a
em vaca: - mas Juno, sabendo-o, mandou do céu à terra um moscardo ou
tavão, incumbido de aferroar incessantemente a infeliz Io, feita vaca e
de forçá-la a não ter quietação e vaguear por toda a parte.
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Io, assim perseguida e em tão desesperada situação, atravessou o
Mediterrâneo e penetrou no Egito: aí, restituída por Júpiter à forma
natural e primitiva, houve deste um filho, que se chamou Epafo e,
seguidamente, o privilégio da imortalidade e Osiris por marido, que veio
ter adoração sob o nome de Ápis.
Os egípcios levantaram altares a Io com o nome de Isis e
sacrificavam-lhe um pato por intermédio de seus sacerdotes e
sacerdotizas: e parece natural que, não desprezando o facto da
metamorfose, exibissem nas solenidades da sua predilecta divindade, como
seu símbolo, uma vaca aguilhoada e errante, corrida enfim.
Afigura-se-nos que sim e, portanto, que a corrida da vaca, a vaca das
cordas, especialmente quanto à primeira parte, as três voltas à roda da
Igreja Matriz, seria uma relíquia dos usos da religião egípcia, como o
boi bento, na procissão de Corpus-Christi, é representativo do deus
Osiris ou Ápis, da mesma religião. E esta foi introduzida com todos os
seus símbolos na península hispânica pelos fenícios, aceite pelos
romanos que a dominaram, seguida pelos suevos e tolerada pelos cristãos
em alguns usos, para não irem de encontro, em absoluto, às enraizadas
crenças e costumes populares.
É que essa Ísis, a vaca de Júpiter, a deusa da fecundidade, teve culto
especial precisamente na região calaico-bracarense, na área de Entro
Douro e Minho; no Convento Bracaraugustano, ou Relação Jurídica dos
Bracaraugustanos (povos particulares de Braga), de que era uma
pequeníssima dependência administrativo-judicial o distrito dos límicos,
prova-o o cipo encravado na face externa dos fundos da vetusta e
venerada Sé Arquiepiscopal, - cipo que a seguirtranscrevemos inteirado,
conforme a interpretação que em parte, nos ensinou e em parte nos
aceitou o eruditíssimo professor do Liceu, Dr. Pereira Caldas:
ISID · AVG · SACRVM LVCRETIAFIDASACERD · PERP
· P ROM · ET · AVG
CONVENTVVSBRACARAVG · D ·
INTERPRETAÇÃO
ISIDI AUGUSTAE SACRUM; LUCRETIA FIDA
SACERDOS PERPETUA POPULI ROMANI ET AUGUSTI, CONVENTUUS
BRACARAUGUSTANORUM DICAT
TRADUÇÃO
"SENDO LUCRÉCIA FIDA SACERDOTISA PERPÉTUA DO
POVO ROMANO E DE AUGUSTO, O CONVENTO DOS BRACARAUGUSTIANOS DEDICA A ISIS
AUGUSTA (OU: À DEUSA ISIS) ESTE MONUMENTO SAGRADO"
Acredita-se porém que, no local onde se ergue a igreja matriz de Ponte
de Lima existiu outrora um templo pagão onde se prestava culto a uma
divindade sob a forma de uma vaca representada num retábulo, o qual era
trazido para o exterior e efectuava as referidas voltas ao templo. Em
todo o caso e atendendo à elevada importância deste animal na economia
doméstica de uma região tão propícia à sua criação em virtude dos seus
pastos verdejantes, é perfeitamente natural que a vaca tenha aqui sido
venerada como símbolo de fertilidade e de abundância e, desse modo, sido
prestado-lhe o devido culto. Não é completamente injustificada a
frequente representação deste animal nomeadamente no artesanato da
região minhota, ao qual a barrista barcelense lhe deu cores e vivacidade
que o ajudaram a tornar-se famoso em todo o mundo. |