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Existe deste tempos remotos na vila de Ponte de Lima o peculiar costume
de, anualmente na véspera do dia de Corpo de Deus, correr uma vaca preta
presa e conduzida pelos ministros da função que assim procedem com o
auxílio de três longas cordas. Esse divertimento cuja verdadeira origem
se desconhece mas que ainda se mantém e parece ganhar ainda mais
popularidade, atraindo à terra numerosos forasteiros, era outrora
executada por dois moleiros que a isso eram obrigados sob pena de
prisão, conforme determinavam as posturas municipais. Muitos desses
moleiros eram oriundos da Freguesia de Rebordões-Santa Maria, localidade
que possuía numerosos moinhos e que, com a sua decadência, os moleiros
da terra emigraram para o Brasil, fixando-se muitos em Goiás.
Ao começo da tarde, uma vaca preta é presa ao gradeamento da igreja
Matriz, aí permanecendo exposta à mercê do povo que outrora, num hábito
que com o decorrer do tempo se foi perdendo, por entre aguilhoadas e
gritaria procurava embravecer o animal a fim de que ele pudesse
proporcionar melhor espectáculo. Invariavelmente, às dezoito horas, lá
aparecem os executantes da corrida que, após enlaçarem as cordas nos
chifres da vaca, desprendem-na das grades e dão com ela três voltas em
pesado trote em redor da igreja após o que a conduzem para a Praça de
Camões e finalmente para o extenso areal junto ao rio Lima. E, por entre
enorme correria e apupos do povo, alguns recebem a investida do animal
aguilhoado e embravecido ou são enredados nas cordas, enquanto as
janelas apinham-se de gente entusiasmada com o espectáculo a que
assiste.
Quando soam as trindades, o espectáculo termina e dá lugar aos
preparativos dos festejos que vão ocorrer no dia seguinte. As gentes
limianas decoram as ruas com um tapete florido feito de pétalas e
serrinha por onde a procissão do Corpo de Deus irá passar.
Com atrás se disse, desconhecem-se as verdadeiras origens deste costume
antiquíssimo. Contudo, uma tela de Goya que se encontra exposta no Museu
do Prado, em Madrid, leva-nos a acreditar que o mesmo era mantido
noutras regiões da Península Ibérica. De igual modo, a tradicional
corrida à corda que se realiza nos Açores sugere-nos ter este costume
sido levado para aquelas ilhas pelos colonos que as povoaram a partir do
continente.
Em meados do século dezanove, o cronista pontelimense Miguel dos Reys
Lemos arriscou uma opinião baseada na mitologia, a qual publicou nos
"Anais Municipais de Ponte de Lima" e que pelo seu interesse a seguir
reproduzimos: |