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Sob uma forma mais ou menos cristianizada,
os povos modernos preservam tradições cujas origens pagãs atestam a sua
antiguidade. São disso exemplo as festas equinociais que anunciam a
chegada da Primavera como sucede com o Entrudo e a Páscoa, as fogueiras
de São João que celebram o solstício do Verão e ainda as saturnais
romanas que foram substituídas pela quadra natalícia. De igual modo,
também a Serração da Velha continua a ser celebrada, ainda que por vezes
sob a forma cristianizada da "Queima do Judas" em que nalgumas regiões é
festejada. Na localidade de Freixianda, no concelho de Ourém, fomos
encontrar no ano transacto uma curiosa forma de celebração, traduzida na
realização de um peditório feito à noitinha, de porta em porta,
acompanhado de um cântico, costume esse que apresenta algumas
semelhanças com o tradicional cantar das Janeiras.
Através do rito, o ser humano participa na
acção criadora dos deuses.
Portanto, através da Serração da Velha -
ritual que invariavelmente tem lugar na quarta-feira da terceira semana
da Quaresma - mais não se pretende do que celebrar o renascimento da
Natureza e a expulsão dos demónios do inverno, nomeadamente através de
manifestações ruidosas como a utilização de sarroncas, zaquelitraques e
outros instrumentos musicais. Ao invés do cristianismo, a crença antiga
unia a vida à morte num ciclo de perpetuo renascimento, tal como ao
inverno sucede a Primavera. O cristianismo haveria de fazer coincidir a
Ressurreição do Senhor com a celebração da Primavera, tal como à data em
que ocorriam as saturnais romanas e entre os povos mais antigos tinham
lugar os cultos de adoração ao Sol foi atribuído o nascimento de Jesus,
sem que no entanto exista qualquer comprovação bíblica.
Nesta quadra, o ovo pascal assume um
particular significado por aquilo que simboliza. Tal como o coelho, o
ovo representa a fertilidade e o nascimento de uma vida, razão pela qual
ele aparece com frequência nos tradicionais folares ou sob a forma de
chocolate. Ainda actualmente, é costume os camponeses da Alemanha
enterrarem ovos nos solos agrícolas convencidos de que tal rito é
propiciador à fertilidade dos campos. É que os rituais antigos
encontram-se intimamente ligados ao ciclo de vida dos vegetais.
Apesar de se tratarem de diferentes versões
de uma mesma celebração, os ritos da Serração da Velha e da Queima do
Judas apresentam extraordinárias semelhanças, a mais importante das
quais constitui a leitura do respectivo testamento que, em ambos os
casos, é invariavelmente utilizado como arma de crítica social aceite
por todos. Localidades existem em que esta função se apresenta sob a
forma e designação de "pulhas". Tal como o jejum observado por cristãos
durante a Quaresma e pelos muçulmanos no Ramadão pretende purificar o
corpo e a alma do indivíduo, a crítica subjacente ao "Testamento" lido
na Queima do Judas ou na Serração da Velha procura corrigir certos
defeitos conhecidos entre a comunidade.
O folclore não compreende unicamente as
formas de cantar e bailar do povo mas ainda as suas crenças e costumes
mais genuínos. Os grupos folclóricos dignos desse nome devem saber
preservar tais tradições, através da sua reconstituição em cenários tão
reais quanto possíveis. E, sobretudo, devem evitar que esses costumes e
o respectivo cancioneiro caia no esquecimento, nomeadamente fazendo a
recolha e procedendo à respectiva publicação. Quando assim procederem,
terão feito um excelente trabalho em prol do folclore da sua região,
merecedor do reconhecimento público.
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