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»» O SABER NÃO OCUPA LUGAR >> Textos, Opiniões e Comentários Pub


Será a defesa da autenticidade no Folclore uma causa perdida?
 

 

Carlos Gomes(*)

A preocupação relativamente à necessidade de se preservar a autenticidade dos usos e costumes do povo na representação dos grupos folclóricos parece ser uma batalha perdida. Em regra, não se realiza a pesquisa nem o estudo, não se investiga nem questiona, apenas se limita a copiar aquilo que já está feito e é apresentado por outros grupos folclóricos, atuais ou já extintos. Tudo o que alguma vez foi apresentado e até elogiado é tido como uma referência inquestionável.

Quando o erro é por demais evidente e fica demonstrado, por maior que seja a insistência com que o mesmo é apontado, não se vê na maioria das vezes qualquer vontade em corrigi-lo. Pior ainda, qualquer reparo que possa ser feito é encarado como um ato de agressão e jamais como uma crítica construtiva: os grupos fecham-se sobre si em atitude de defesa e repelem o que consideram uma investida.

Desde os começos do século XX até aos nossos dias, o folclore foi absorvendo uma série de alterações provocadas por razões económicas, sociais e até políticas. O particular empenho do Estado Novo neste domínio, nomeadamente através das Casas do Povo, da FNAT e da Mocidade Portuguesa deixou marcas de tal forma profundas que, salvo raras exceções, os atuais grupos folclóricos tornaram-se herdeiros dessa tradição, convencidos de que aquilo que representam é o mais genuíno da cultura popular portuguesa.

Pode utilizar-se botões de plástico, calçado de sola de borracha, chapéu à toureiro, elásticos nas chinelas, saias curtas, lenços à cintura, autocolantes, lenços tabaqueiros ao pescoço, pompons nas castanholas, óculos modernos e outras fantasias e, ao mesmo tempo, afirmar-se que se estão a representar costumes dos finais do século XIX, o que há de mais genuíno no folclore, não raras as vezes interpretado por grupos que se apresentam muito bem fardados como se um grupo de majoretes se tratasse. O mesmo se verifica em relação às denominações frequentemente escolhidas para identificar os grupos, à área de representação que procuram abranger, à estilização das danças, adulteração dos trajes, ao ritmo acelerado da atuação, exibicionismo, coreografias inventadas e quadros pretensamente etnográficos ao jeito das rábulas de Parque Mayer e inclusão de músicas e cantigas que nada têm a ver com o folclore mas que são úteis para a realização do espetáculo.

E porque de um espetáculo se trata, a autenticidade é frequentemente preterida em proveito do elemento lúdico. Mais ainda, a produção de um bom espetáculo de folclore, um tanto ao jeito das casas típicas onde se exibe folclore para turistas, constitui uma forma de garantir bons contratos para atuações sem os quais não há folclore para ninguém… ele é o saber do povo mas os grupos necessitam de receitas para sobreviver e alguns artistas não trabalham sem remuneração, como sucede frequentemente com alguns ensaiadores e tocadores de concertina e acordeão!

Mau grado o panorama a que se assiste no associativismo folclórico, muitos grupos consideram-se sem mácula e, por conseguinte, sem qualquer necessidade de proceder a eventuais correções ou melhorias. Mais ainda, porque a filiação na Federação do Folclore Português é, em grande medida, encarada como uma espécie de certificado de garantia, todos os grupos ditos folclóricos, por mais coxos que se apresentem, arrogam-se no direito de serem filiados naquele organismo, representando a sua recusa uma tremenda injustiça e originando uma profunda frustração.

A realidade acaba sempre por sobrepor-se à nossa vontade. De nada serve procurarmos questionar aquilo que representamos se ninguém está interessado sequer em analisar, debater, partilhar conhecimentos, quanto mais em alterar seja o que for. Ainda que adulterado, o folclore é algo que nos anima:

- Siga a rusga!

(*) Jornalista, Licenciado em História

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