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A preocupação relativamente à necessidade de se preservar a
autenticidade dos usos e costumes do povo
na representação dos grupos
folclóricos parece ser uma batalha perdida. Em regra, não se realiza
a pesquisa nem o estudo, não se investiga nem questiona, apenas se
limita a copiar aquilo que já está feito e é apresentado por outros
grupos folclóricos, atuais ou já extintos. Tudo o que alguma vez foi
apresentado e até elogiado é tido como uma referência inquestionável.
Quando o erro é por demais evidente e fica demonstrado, por maior que
seja a insistência com que o mesmo é apontado, não se vê na maioria das
vezes qualquer vontade em corrigi-lo. Pior ainda, qualquer reparo que
possa ser feito é encarado como um ato de agressão e jamais como uma
crítica construtiva: os grupos fecham-se sobre si em atitude de defesa e
repelem o que consideram uma investida.
Desde os começos do século XX até aos nossos dias, o folclore foi
absorvendo uma série de alterações provocadas por razões económicas,
sociais e até políticas. O particular empenho do Estado Novo neste
domínio, nomeadamente através das Casas do Povo, da FNAT e da Mocidade
Portuguesa deixou marcas de tal forma profundas que, salvo raras
exceções, os atuais grupos folclóricos tornaram-se herdeiros dessa
tradição, convencidos de que aquilo que representam é o mais genuíno da
cultura popular portuguesa.
Pode utilizar-se botões de plástico, calçado de sola de borracha, chapéu
à toureiro, elásticos nas chinelas, saias curtas, lenços à cintura,
autocolantes, lenços tabaqueiros ao pescoço, pompons nas castanholas,
óculos modernos e outras fantasias e, ao mesmo tempo, afirmar-se que se
estão a representar costumes dos finais do século XIX, o que há de mais
genuíno no folclore, não raras as vezes interpretado por grupos que se
apresentam muito bem fardados como se um grupo de majoretes
se tratasse. O mesmo se verifica em relação às denominações
frequentemente escolhidas para identificar os grupos, à área de
representação que procuram abranger, à estilização das danças,
adulteração dos trajes, ao ritmo acelerado da atuação, exibicionismo,
coreografias inventadas e quadros pretensamente etnográficos ao jeito
das rábulas de Parque Mayer e inclusão de músicas e cantigas que nada
têm a ver com o folclore mas que são úteis para a realização do
espetáculo.
E porque de um espetáculo se trata, a autenticidade é frequentemente
preterida em proveito do elemento lúdico. Mais ainda, a produção de um
bom espetáculo de folclore, um tanto ao jeito das casas típicas onde se
exibe folclore para turistas, constitui uma forma de garantir bons
contratos para atuações sem os quais não há folclore para ninguém… ele é
o saber do povo mas os grupos necessitam de receitas para
sobreviver e alguns artistas não trabalham sem remuneração, como
sucede frequentemente com alguns ensaiadores e tocadores de concertina e
acordeão!
Mau grado o panorama a que se assiste no associativismo folclórico,
muitos grupos consideram-se sem mácula e, por conseguinte, sem qualquer
necessidade de proceder a eventuais correções ou melhorias. Mais ainda,
porque a filiação na Federação do Folclore Português é, em grande
medida, encarada como uma espécie de certificado de garantia,
todos os grupos ditos folclóricos, por mais coxos que se apresentem,
arrogam-se no direito de serem filiados naquele organismo, representando
a sua recusa uma tremenda injustiça e originando uma profunda
frustração.
A realidade acaba sempre por sobrepor-se à nossa vontade. De nada serve
procurarmos questionar aquilo que representamos se ninguém está
interessado sequer em analisar, debater, partilhar conhecimentos, quanto
mais em alterar seja o que for. Ainda que adulterado, o folclore é algo
que nos anima:
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