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à Senhora dos Milagres em Castelo de Paiva, a S. Torcato em Guimarães e
a Santiago em inúmeras localidades do país, devoção esta muito
provavelmente relacionada com as antigas peregrinações a Compostela e os
caminhos outrora trilhados pelos peregrinos.
De resto, as romarias constituem um costume religioso cujas origens
perdem-se nos tempos. Já na antiguidade, era costume dos povos antigos
deslocarem-se em peregrinação aos seus deuses, como aliás sucedia na
Grécia onde se deslocavam ao Olimpo e a outros lugares sagrados e
consultavam as pitonisas. Tal costume adquiriu entre a cristandade novo
fôlego a partir da idade Média, altura em que a devoção e o fervor
religioso levava de peregrinos de todo o mundo a calcorrearem milhares
de quilómetros a fim de visitarem as relíquias de Santiago, em
Compostela, S. Pedro e São Paulo em Roma ou o Santo Sepulcro, em
Jerusalém. Aliás, da mesma forma que os muçulmanos se obrigam a ir a
Meca e os hindus a banharem-se no rio Ganges ou deslocarem-se ao pagode
de Badrinate.
Ia-se em peregrinação a Compostela como agora vai-se ao santuário de
Fátima, na Cova da Iria, com a diferença de que o peregrino de então não
se deslocava em cumprimento de qualquer promessa - procurava,
unicamente, nascer espiritualmente de novo para a vida. E resultou daí
toda a simbologia em torno das vieiras que utilizava no baptismo e que o
peregrino trazia desse sítio onde outrora se julgava que a Terra
terminava (Finisterra) e um maravilhoso Campo de Estrelas (Compostela)
se formava nos céus onde mais tarde se ergueu a grandiosa catedral.
Em geral, as festas e romarias que se realizam desde tempos ancestrais
têm a sua origem em cultos pagãos que frequentemente se realizavam em
antigos santuários que deram origem a pequenas ermidas e novos templos
cristãos, em torno dos quais se reza, canta e dança como muito
provavelmente outrora se fazia. Macarius em Paredes de Coura e Laraucus
(Larouco) em Montalegre eram divindades pagãs veneradas pelas
comunidades respectivas na era pré-cristã.
A adoração ao Menino Jesus deriva muitas vezes do culto ao deus
Endovélico e Santa Marta de um culto a Marte, deus dos campos e da
fertilidade antes de se ter tornado deus da guerra.
Mas a romaria é também pretexto para a festa, para a estúrdia e o
arraial.
Logo de manhã cedo, os gaiteiros anunciam com o rufar dos seus bombos
que a jornada está para durar. É tempo dos mais novos arranjarem
namorico e se divertirem enquanto os mais velhos chegam-se para as
barraquitas de comes e bebes onde refrescam as goelas com umas
apetecidas malgas de verdasco. Os caminhos enfeitam-se de arcos e
festões. Vende-se cavacas e rosquilhas.
Quem vai ao S. João d'Arga não prescinde da famosa aguardente com mel.
Os cantadores fazem o gáudio do povo e, não raras as vezes, o desafio
termina em pancadaria. E dança-se até a festa acabar que pode ser quando
o sol despertar. Os céus iluminam-se com girândolas e lágrimas que fazem
o orgulho do fogueteiro minhoto. E, quando a festa termina, depressa se
reúnem os ranchos de gente que se haviam formado no dia anterior para a
romaria. E lá vão todos abaixo, levando já consigo a saudade e a mente a
fervilhar de sonhos. Para o ano, regressarão ao local, venerar o mesmo
santo e reviver os momentos passados, pelo que é necessário que se façam
novas promessas.
São centenas, talvez milhares, as festas e romarias que se realizam em
Portugal durante os meses de Julho,
Agosto e
Setembro, culminando este
ciclo com as Feiras Novas em Ponte de Lima e a Senhora dos Remédios, em Lamego. É tempo de romaria. Em breve chegarão as vindimas e as adiafas.
Até lá, subamos aos terreiros e dancemos a
chula e o vira, o corridinho
ou o fandango, as saias e as tiranas. Cumpramos as promessas aos santos
da nossa devoção e, sobretudo, preservemos a tradição que confere a
nossa identidade como povo. |