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Regionalismo em Portugal: alguns aspectos do seu percurso histórico

 

Carlos Gomes(*)

(Continuação...)

Com o advento do Estado Novo, as designações originais vão alterar-se e passar a adoptar novas denominações que ainda subsistem. O novo regime procura integrar as “casas regionais” na sua lógica corporativa, tentando em vão constituir o “Conselho Superior do Regionalismo Português” e vedando-lhe ao mesmo tempo a designação de “grémios”. A participação de figuras gradas ao regime e a ligação existente aos governos civis e outras autoridades proporcionaram a estas associações um determinado grau de importância que jamais viriam a beneficiar após o derrube do regime em 1974. Esse período representou o auge e grandeza, sobretudo das associações regionalistas de âmbito provincial.

Também em Angola e Moçambique surgiram as casas regionais, procurando agrupar os portugueses oriundos das diversas regiões da metrópole. Estas associações tiveram, naturalmente, o seu fim com a descolonização daqueles territórios e o regresso daqueles que então foram designados por retornados. No Brasil, Venezuela, Estados Unidos da América e outros países, a formação de casas regionais reflecte naturalmente as origens das principais comunidades que aí se fixaram mas são sobretudo espaços de encontro e convívio de todos os nossos compatriotas e das amizades que entretanto construíram nessas paragens distantes.

Entretanto, em Portugal vão surgindo algumas associações de âmbito concelhio e de comarca cujo aparecimento, em regra, não é bem visto pelas casas de província que, de forma mais ou menos discreta, exercem pressões com vista a impedir a formação daquelas. Porém, a influência exercida pelos respectivos municípios interessados no seu aparecimento leva a que consigam obter os alvarás concedidos pelo Governo Civil de Lisboa e à altura indispensáveis ao exercício da sua actividade.

Nos anos sessenta, o envio de muitos jovens para o ultramar marca de certa forma o início do declínio das casas regionais. Na sua ausência, a noiva ou a jovem comprometida ficava inibida de se divertir. Também o aparecimento da televisão contribuiu para reduzir a frequência das colectividades em geral, as quais se viam obrigadas a utilizar esse meio de entretimento para atrair os associados.

A partir dos anos setenta, a maioria das “casas regionais” definha. Algumas sobrevivem recorrendo a bailes e outras formas de convívio de frequência duvidosa que acabam por prejudicar a sua própria imagem. Outras restringem a sua actividade à realização de eventos pantagruélicos a preços inacessíveis à bolsa de quem necessita de trabalhar para sobreviver, procurando desse modo estabelecer uma frequência seleccionada. A maior parte destas associações vai, contudo, descaracterizar-se à medida que pauta a sua acção por actividades que pouco ou nada têm a ver com o regionalismo, indo nalguns casos ao ponto de entregar os seus destinos a estranhos às respectivas regiões que constituem a sua referência. O seu declínio é imparável e algumas destas associações encontram-se agora à beira da extinção.

Procurando colmatar situações de dificuldade relativamente a instalações, a Câmara Municipal de Lisboa tem vindo a ceder terrenos para a sua construção de sedes de diversas casas regionais, sob o regime do “direito de superfície”, da mesma forma como tem feito com outras entidades. Porém, nenhuma das referidas associações chega a assentar um único tijolo, deixando decorrer os anos e com eles caducar o acordo que estabelece um prazo para o início da construção. Não obstante muitas delas possuírem meios financeiros resultantes nomeadamente de indemnizações atribuídas em processos de despejo de anteriores instalações.

A não ser que as associações regionalistas reencontrem a sua verdadeira razão de existir e saibam adaptar-se às novas realidades sociais e culturais, iremos assistir ao inevitável declínio e provável desaparecimento das “casas regionais”. À semelhança das demais instituições criadas pelo Homem, também o associativismo regionalista constitui um meio com vista à sua própria dignificação e não um fim em si mesmo.
 

Bibliografia:

GOMES, Carlos. Regionalismo em Portugal. Subsídios para a sua História. Casa do Concelho de Ponte de Lima. 1997. Lisboa
 

(*) Jornalista, Licenciado em História

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